MÚSICA - Samba de bamba
PUBLICAÇÃO
sábado, 13 de agosto de 2005
Katia Michelle Pires<br> Equipe da Folha 
Curitiba - O músico carioca Osvaldo Pereira acaba de se transformar numa referência obrigatória para quem gosta do mais puro samba. Em seu segundo disco ''Às Árvores'' recém-lançado pela Dubas ele consolida o gênero que o influenciou desde criança. Evoca desde Francisco Alves a Noel Rosa, ao mesmo tempo que consegue conferir uma sonoridade autêntica ao trabalho. Nas 12 faixas, todas assinadas por ele, Pereira se mantém longe das influências contemporâneas e obtém um resultado uníssono, mas bem longe da monotonia. E isso acontece tanto no ritmo quanto nas divertidas, densas e irreverentes composições.
Não é difícil entender como um carioca de 37 anos tem no sangue o bom suingue do samba. Filho de um advogado, ele ganhou do pai uma coleção dos mais renomados sambistas que fizeram a história do gênero no País antes mesmo de completar dez anos de vida. Nessa época também passeava com o pai pelos sebos cariocas em busca de raridades. Foi quando encontrou um LP com a música ''Com que roupa'', de Noel Rosa e a ouviu repetidamente. ''Eu me apaixonei pela música, pela condução da melodia, pelo jogo de palavras'', desmancha-se.
A partir dessa época, começou a fazer paródias e aos 15 anos compôs o primeiro samba. Três anos mais tarde, ele escreveu a letra de ''Olha Zé'', título do seu primeiro disco, lançado no final de década de 90 e que lhe rendeu o Prêmio Sharp Revelação de 1999. O prêmio foi merecido. Para gravar o disco, Pereira vendeu o próprio carro e com o dinheiro bancou as gravações e as cópias. Antes disso, ele percorria bares e universidades do Rio de Janeiro com um grupo de samba, mesclando músicas de sambistas conhecidos com as músicas próprias. Até que reuniu um número suficiente de composições, além de coragem, para dar o pontapé inicial a ''Olha Zé''.
O segundo disco solo, cujo projeto a Dubas abraçou, não teve início muito diferente. Ele começou a gravar as primeiras músicas em 2001. ''Sobrava um dinheiro e eu corria para o estúdio, gravava uma, duas músicas e esperava conseguir mais grana'', conta. Nessa época também, ele começou a estudar direito na Cândido Martins. ''Estou quase terminando, mas cada vez tenho mais certeza de que isso (a advocacia) não é pra mim'', brinca.
Dois dois projetos paralelos, a gravação das músicas para o seu segundo disco foi concluído antes. Mas dessa vez, antes de bancar novamente a independência do trabalho, ele decidiu mostrar o resultado para o amigo Ronaldo Bastos, da excelente Dubas. ''Ele me ligou na mesma semana e disse para eu não mostrar para mais ninguém que a Dubas iria lançar'', conta. O disco sai impecável, com algumas faixas que se sobressaem mais do que outras, mas com um balanço positivo.
Destaque para a faixa-título, ''As árvores'' (''De amores não vou falar na minha amargura/que o samba já tem uma vasta literatura/meu único amor no mundo são as árvores'') e para a realista ''O artista que mudou de profissão'' (''É triste ver pela rua na tarde nublada/de gravata e camisa suada/o artista que mudou de profissão. Elegia do desencanto de quem sonha viver da própria arte, mas que há tempos não vê um verso passar pelo coração'').
A maioria das músicas são composições recentes, excessão para ''O vento no bambuzal'', composta em 1986. O disco tem produção de Luis Filipe de Lima e participações interessantes, como a Carlos Didier, o Caola, biógrafo de Noel Rosa e integrante do extinto Coisas Nossas e de Eliseu, ritmista que gravou os principais sambistas a partir da década de 60 e que foi redescoberto trabalhando como flanelinha, nas ruas do Rio de Janeiro.


