Enquanto Rita Lee está viva e cheia de graça, ainda faz um monte de gente feliz. Quem a viu cantando ''Saúde'', na abertura do show do projeto MTV ao Vivo, na última quinta-feira, acreditava nisso. Especialmente nesses versos da canção, em irresistível batida dançante de disco-rock, a platéia (ou seria a claque?), cheia de louras falastronas, teve a primeira das maiores manifestações espontâneas de euforia. A segunda foi bem mais adiante, quando Zélia Duncan entrou com tudo para o dueto com Rita no blues ''Pagu'' (composição das duas). ''Ela é uma poupança, uma previdência social, me dá a segurança de que é bom estar viva, essas coisas'', derreteu-se a anfitriã. O encontro foi o destaque de uma noite de bons rocks, mas muitos erros e conversa mole, que acabou aborrecendo parte significativa da audiência.
O show foi realizado no subsolo daquela esquisita melancia de concreto, o Hotel Unique, para o registro de um DVD. E como ocorre em toda gravação de programa de tevê, volta e meia alguma música tem de ser refeita, mas haja paciência! Foram muitas.
Na terceira tomada de ''Esse Tal de Roque Enrow'', duo com a roqueira Pitty, a debandada foi inevitável. É claro que nada disso vai aparecer na edição do DVD, no qual o show certamente vai parecer melhor do que foi. Essa sensação de coisa falsa chegou a incomodar um pouco.
A gravação já se prolongara, então, por duas horas e não se pode dizer que Pitty tenha tido atuação que a faça ganhar fãs de Rita Lee. Toda cabelos e jogo de cena, a baiana é bem fraquinha. Cria típica de uma geração que não sabe falar direito, engoliu sílabas e errou no tom, mas nada que o milagre do pro-tools não resolva.
Eliminando Pitty, a abertura da VJ Sarah Oliveira, falando de criança para crianças, pulando os intervalos para reparar os erros e escondendo o sax meloso de Milton Guedes (nova aquisição da banda), o DVD deve ficar muito bom. Rita estava naquelas dias dos mais espirituosos. E foi divertido acompanhar um roteiro que começou com ''Saúde'', ''Nem Luxo, nem Lixo'' (''quero saúde pra gozar no final''), ''Amor e Sexo'' para descambar em ''Tudo Vira Bosta'', ''o sentido da vida'', e na homenagem-crítica ''As Mina de Sampa'' atingindo muitas do ''tipo assim'', branquelas, que estavam na platéia.
A estampa do cenário de flores sobre fundo preto e a banda coesa com Dadi (baixo), Ari Dias (percussão) e Roberto de Carvalho (guitarra) como destaques eram as mesmas do bem-sucedido show ''Balacobaco''. No repertório, porém, Rita privilegiou antigos sucessos, como é mais conveniente ao projeto MTV ao Vivo. Fez versões bem bacanas de ''Panis et Circensis'' (Caetano Veloso/Gilberto Gil), ''On the Rocks'' e ''Mamãe Natureza'', lembrando que foi a primeira que compôs depois de expulsa dos Mutantes, ''não sem antes chorar três meses sem parar''. ''The more I See You'' e ''Lucy in the Sky with Diamonds'' não caíram tão bem. ''Doce Vampiro'' e ''Ovelha Negra'' soaram a obrigatoriedade sem vontade.
Na inédita ''Coração Babão'', ''superjovem guarda'', evocou Wanderléa. Rita ainda mostrou outra nova, ''Meio-Fio'' (Roberto de Carvalho/Arnaldo Antunes) e reservou para a sessão pauleira ''Ando Jururu'' e uma convincente versão em português de ''I Wanna Be Sedated'' (''Quero Ser Sedado''), dos Ramones, que havia interpretado no original em inglês na turnê de ''Balacobaco''. Por essas e outras, como tende a se confirmar, o show do show, ou seja, o do lançamento do DVD, deve compensar.

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