O aniversário de 80 anos, comemorado no mês passado, poderia ficar registrado apenas em fotografias ou vídeos caseiros. Mas uma conspiração ''do bem'', articulada pelos filhos, garantiu uma inusitada posteridade à festa de Ivone Curi Barboza.
Sabendo dos dotes vocais da mãe, eles a presentearam com a gravação de um CD. A idéia era colocá-la num estúdio, registrar sua performance e apressar a prensagem das cópias para ficarem prontas até o dia de assoprar as velinhas. Os filhos não se contentavam mais em ouvir a ''cantora'' apenas em fitas-cassetes, nas quais ela sempre revelou sua vocação para a música.
Dona Ivone se empolgou. O disco foi gravado em Florianópolis, com a participação de alguns dos melhores músicos locais. ''Um dos meus filhos (Jobert) mora lá e foi ele quem coordenou tudo'' conta. Diante do microfone, ela interpretou 12 clássicos da música popular brasileira de compositores como Noel Rosa, Cartola, Ary Barroso, Paulo Vanzolini e Nelson Cavaquinho.
''São alguns dos meus preferidos. A gente procurar cantar músicas que ficam bem com a nossa idade. Não ficaria bem eu cantar rock ou hip hop. Ao pensar no repertório, escolhi canções românticas, músicas que expressam e dizem algo nas letras'' ressalta ela. Quando o CD ficou pronto, foi uma emoção coletiva. No dia da festa, a octogenária distribuiu as cópias para os parentes e amigos.
''O CD foi gravado para servir de lembrança, de presente'' salienta. ''Não foi feito para comercializar. Se fosse para vender, eu já teria vendido bastante, porque muita gente tem perguntado sobre ele. Todos os dias atendo telefonemas solicitando uma cópia'' completa. Ivone, uma antiga moradora do Centro de Londrina, sempre cantou.
Quando criança, encantava a todos soltando a voz em casa e em teatros de colégio. Casou-se bem jovem, aos 17 anos. Apesar de revelar talento e afinação, nunca pensou em se dedicar à música. ''A gente faz uma opção na vida'' argumenta ela. ''A minha foi ser esposa, mãe e dona-de-casa. Houve uma época em que juntávamos 20 casais de amigos em casa. Isso fazia com que eu não sentisse falta de atuar diante de uma platéia maior''.
Mesmo assim, nunca recusou convites para se apresentar aqui e ali. Ela lembra que já cantou no auditório da Associação Médica, no Empório Guimarães e em espaços intimistas como o salão do extinto Hotel Sahão, o bar do Hotel Bourbon e os restaurantes Villa Fontana e Estação Norte. ''Não faço cerimônia. Se me pedirem, canto em ambientes pequenos. Os músicos não acreditam que uma senhora de 80 anos possa ter voz e fôlego. Canto como sempre gostei de cantar '' afirma.
Entre suas principais influências, ela cita Isaurinha Garcia, Elizete Cardoso, Nora Ney e Maysa. Graças à boa receptividade do CD, ela confessa que renovou a disposição para futuras empreitadas. ''Se eu gravar um novo disco, quero gravar músicas de Chico Buarque, que é o meu compositor predileto entre os modernos. Mas se isso ocorrer, quero fazer profissionalmente. Tudo vai depender dos meus filhos, porque não faço nada sozinha''. Dona Ivone, que mora ao lado do Bosque Municipal, nunca vai esquecer desse aniversário.

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