MÚSICA - 'Rei' diz recorrerá em processo para barrar biografia
PUBLICAÇÃO
sábado, 24 de fevereiro de 2007
Jotabê Medeiros<br>Agência Estado 
Angra dos Reis - Estela, de Belém do Pará, o encontrou pela primeira vez nos anos 60, nos bastidores de um programa da TV Marajoara, recostado em um balcão, esperando pacientemente a sua vez de entrar em cena. Naquela época, ele ainda fazia show em cima de caminhão, lembra.
O padre Antônio Maria recorda, durante uma missa no restaurante do navio, a sua primeira vez com Roberto Carlos. Eu fiquei eufórico quando o encontrei e, como todo tiete, pedi para tirar uma foto com ele. Ele topou, mas, de repente, falou: Pára, pára! Tem um espelho aqui atrás, padre, vai estragar sua foto. Vamos mais ali adiante. Roberto é um homem de uma tremenda humildade e simplicidade.
Para o trompetista Walmir Gil, um dos fundadores da famosa banda Mantiqueira, que já acompanhou Djavan e hoje está há apenas três anos acompanhando Roberto (há outros músicos, como o percussionista Dedé e o vocalista de apoio Djalma, que seguem o Rei há mais de 40 anos), o cantor é um homem com algumas manias, mas acima de tudo um músico de grande talento, um fabuloso intérprete.
A bordo do navio de cruzeiro Costa Fortuna, no qual o cantor mais popular do País se apresenta anualmente há 4 anos, é possível colher muitos retratos de Roberto Carlos, quase todos elogiosos, quase todos incondicionalmente elogiosos. Mais de 3 mil pessoas pagam alegremente todo ano entre US$ 1,2 mil e US$ 1,6 mil para acompanhar esse cruzeiro, que reúne parte da corte excêntrica de Roberto este ano, além do padre-cantor Antonio Maria, da cantora Martinha, do ator José Valien (o baixinho da Kaiser), estava lá até um homem que ganha a vida como sósia de Roberto Carlos, o goiano Raul Nazário. Sim, ele sabe que eu estou aqui e até trocou uns sorrisos comigo do palco, comemora Nazário, que já foi hippie, seu apelido é Zinho, torcedor do Palmeiras e Vasco, segundo nos conta o pequeno cartão que distribui a quem o interpela.
Nazário se refere a Roberto sempre como a uma divindade. Não é o único. Muitos de nós perderam o barco de Jesus, discursou o padre Antonio Maria. Mas Roberto não, ele não esquece nunca do principal, ele sabe que é o rei com minúscula, que aquele é o Rei com maiúscula, disse, apontando para o céu. Foi Roberto, ele teoriza, que após cantar Jesus Cristo em shows demoliu a barreira que havia entre a canção religiosa e a canção pop, possibilitando o aparecimento de gente como ele mesmo, padre Antonio Maria.
Um único membro da corte carliana correu o risco esta temporada de desagradar ao cantor com um pedido sacrílego. O dançarino Carlinhos de Jesus colocou mais de 300 senhoras e senhores para dançar ao som de Quero Que Tudo Vá pro Inferno ora, todo mundo sabe que Roberto não fala a palavra inferno e não canta mais essa canção. Mas eu pedi autorização antes, diz Carlinhos. E Roberto consente. O Carlinhos pode, está previamente aprovado.
Os admiradores acorrem ao mar, segundo dizem, pela possibilidade de ficar perto dessa entidade particular do mundo pop. Ano a ano, ele parece realizar cada vez um pouco mais esse sonho dos fãs. Em uma madrugada deste verão, depois de um show de 2 horas no teatro do navio, desceu de sua cabine e caminhou pelo convés como um homem comum.
Estava à procura de um novo parceiro, o MC Leozinho, que o introduziu ao mundo do funk carioca. Juntos, cantaram Se Ela Dança Eu Danço, hit do funkeiro, e Negro Gato (1966), de Getúlio Cortes, hit da Jovem Guarda, o movimento jovem do qual ele foi o capitão e timoneiro nos anos 60. Desinibido, o rei saiu beijando as dançarinas, mas pareceu mais entusiasmado com uma de olhos azuis e derrière de fazer inveja à Scheila do Tchan. Já estou com o Leozinho há uma cara, mais de um ano, disse a invejada popozuda, que assina o singelo nome de Gracie Kelly.
O show de Roberto Carlos a bordo do Costa Fortuna é rigorosamente igual ao que faz em qualquer lugar em terra firme. Só uma novidade: ele canta a quase desconhecida canção Comandante do Seu Coração, dele e de Erasmo, de 1966, ultrakitsch (Mas se você quiser, tomo conta de tudo/ desatraco esse barco, traço nosso mundo/O caminho do amor/Eu sei a direção). O Projeto Emoções em Alto-Mar, como foi batizado o cruzeiro, é um cardume de expressões, trocadilhos e metáforas com o mundo marinho e o mundo robertiano. Esse é o maior barco do mundo. Mas nem mesmo o sol, nem as estrelas, nem mesmo o mar e o infinito é maior que o meu amor por vocês, discursou aos comensais do seu principal restaurante o capitão italiano do barco, Michele de Gregório, citando a música Como É Grande o Meu Amor por Você (1967).
No cruzeiro de Roberto Carlos, velhas senhoras sonham em ser escolhidas a dedo para a sucessão ao trono vago de rainha. Dona Elvira, colega de dona Estela, ambas de Belém do Pará, acha graça quando ouve dois homens gritando a mesma frase que ela (Roberto, eu te amo). Tem esposa que é cega, ironiza. Uma das senhoras rompeu o cerco da segurança e das tietes no final do show e conseguiu entregar a ele uma boneca que carregava com um cartaz colado nas duas mãos, onde se lia: Roberto, você sabe que eu te adoro, mas não sabe quanto. Roberto recolheu o brinde, leu e abraçou a boneca. E depois o pessoal ainda não sabe porque ele se mantém há quase 50 anos no coração de seus fãs.
Rei diz recorrerá em processo para barrar biografia
O cantor e compositor Roberto Carlos perdeu o primeiro round, mas não pensa em desistir do processo que move contra Paulo César Araújo, autor da biografia não autorizada Roberto Carlos em Detalhes, e sua editora, a Planeta. Em entrevista durante cruzeiro marítimo no navio italiano Costa Fortuna, do qual participam 3,3 mil pessoas, Roberto demonstrou que não considera uma derrota judicial o fato de a Justiça não ter acolhido seu pedido de recolher o livro das livrarias. Para ele, ainda não há opinião desfavorável de primeira instância.
O cantor disse que vai até o fim no processo. O que a lei me dá direito, será feito. Antes, tinha afirmado que ele mesmo é o único em condições de contar a própria história. Vou contar direitinho as coisas como elas realmente são. Quando lhe perguntaram qual seria sua reação se um admirador viesse lhe pedir um autógrafo no livro de Araújo, ele foi lacônico: Não, não daria. Diria: me dá um papel, mas esse livro eu não vou assinar.
Estou reclamando de invasão de privacidade. A minha história é um patrimônio meu. Quem escreveu esse livro se apropriou desse meu patrimônio em seu próprio benefício, seja como for que ele o tenha usado. Essa é minha opinião. Estou reclamando isso. A minha vida pública, tudo que aconteceu na minha carreira, isso tudo bem, isso qualquer um pode escrever 500 livros, porque isso é de domínio público. Agora, minha vida particular, não. É domínio meu.
O cantor iniciou o processo contra o autor e a editora em dezembro.(J.M./A.E.)


