MÚSICA - Quando a ordem era experimentar
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terça-feira, 31 de janeiro de 2006
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
Uma das fases mais inventivas do rock nacional foi recapturada. Um lote de CDs chega às lojas no próximo mês trazendo versões remasterizadas de 7 álbuns antológicos dos Mutantes, do ainda pouco conhecido segundo disco solo de Rita Lee, além de um raro registro fonográfico do maestro Rogério Duprat.
Os títulos remontam ao tropicalismo e à psicodelia radical brasileira. O pacote surpreende, já que não há nenhum revival do período estimulando lançamentos oportunistas nesta temporada. Os Mutantes voltam às prateleiras com os álbuns ''Os Mutantes'' (1968), ''Mutantes'' (1969), ''A Divina Comédia ou Ando Meio Desligado'' (1970), ''Tecnicolor'' (1970), ''Jardim Elétrico'' (1971) e ''Os Mutantes e Seus Cometas no País dos Baurets'' (1972) e ''OA e o Z'' (1973).
A banda misturou rock lisérgico, ritmos brasileiros, letras bem-humoradas e irreverência comportamental. Descoberta em meados dos anos 90 no exterior, tornou-se objeto de culto de uma legião de artistas e bandas inglesas e norte-americanas como Nirvana, Sonic Youth, Yo la Tengo, Stereolab, Beck e Belle and Sebastian. No Brasil, órfãos tardios têm mais uma oportunidade de apreciar o legado do grupo.
De Rita Lee, foi resgatado o álbum ''Hoje é o Primeiro Dia do Resto da Sua Vida'' (1972), lançado na época como o segundo-solo da cantora mas cuja gravação contou com a participação dos irmãos Arnaldo e Sergio Baptista. O material traz o último registro dos Mutantes com sua mágica formação original. Um ano depois, a banda paulistana estrearia um novo show no Rio de Janeiro sem o carisma de Rita Lee.
Neste disco, ela sobressai assinando sete das dez faixas, além de cantar em quase todas e fazer o desenho que ilustra da capa. O repertório passeia por rock progressivo, tango, samba e experimentações eletrônicas. Também repleto de misturas ousadas, o álbum ''A Banda Tropicalista do Duprat'' (1968) chega quase inédito ao público. Lançado originalmente em vinil, nunca havia sido editado em formato digital.
Os Mutantes participam de quatro faixas: ''Lady Madona'' (cover dos Beatles), ''The Rain, The Park and Other Things'' (original dos americanos The Coswills), ''Canção para Inglês Ver''/''Chiquita Bacana'' (meddley de Lamartine Babo e João de Barro & Alberto Ribeiro respectivamente) e ''Cinderella Rockfella''. Ítem de colecionador, o lançamento apresenta Rogério Duprat para as novas gerações.
Vivendo hoje no anonimato, o maestro mora num sítio em Itapecerica da Serra (SP). Aos 73 anos, já não ouve rádio nem música devido a uma progressiva perda de audição. Seus últimos trabalhos foram nos anos 90, quando assinou arranjos para Rita Lee e Lulu Santos. Ao longo da carreira, construiu sua reputação ligando-se sempre ao que havia de novo na música. Foi um dos primeiros artistas de formação clássica a se aliar a bandas de rock.
Nos anos 60, participou de inúmeras manifestações artísticas provocativas chegando a reger orquestra com um macacão da Shell. Em alguns concertos, usava jornal no lugar da partitura, além de apresentar peças executadas só com eletrodomésticos. Figura-chave na tropicália, criou os arranjos para os discos mais importantes do movimento. Foi ele quem apresentou os Mutantes a Gilberto Gil colocando-os juntos no palco para tocar a música ''Domingo no Parque'' num daqueles célebres festivais da Record.
Na famosa foto de lançamento do movimento tropicalista, estampada na capa do álbum ''Tropicália'', Duprat aparece segurando um penico como se fosse uma xícara de chá. Trinta e oito anos depois, a recuperação de um de seus obscuros discos retorna ao mercado assim como os demais títulos do pacote com a capa original e acompanhado de um novo texto de autoria do pesquisador Marcelo Fróes.


