MÚSICA - Pagodinho volta em clima de gafieira
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sábado, 28 de outubro de 2006
Roberta Pennafort<br> Agência Estado 
Zeca Pagodinho não leva jeito para dança e nunca foi frequentador de gafieiras. Mas é fã do gênero tocado nos salões. Ele adorou quando a MTV sugeriu o tema para o seu segundo projeto da série Acústico - Zeca é o único artista-solo a receber o convite duplo. O belo show que deu origem a um CD e a um DVD (da Universal Music) já foi exibido pela emissora. No repertório, estão alguns de seus sucessos, sambas clássicos e músicas inéditas, que têm tudo para agradar ao seu (enorme) público.
''Nunca fui de gafieira, mas gosto muito. É do tempo dos malandros alinhados, que eu via quando era garoto'', conta Zeca, num sofá da gravadora Universal, no Rio, em conversa descontraída. Ele começa dizendo que se sente honrado por ter sido chamado a bisar o Acústico (o primeiro, de 2003, focado em seus hits, vendeu 700 mil CDs e 260 mil DVDs).
Explica que se sentiu extremamente à vontade nas gravações, realizadas na cidade, em agosto, para uma platéia de convidados. Especialmente, por trabalhar com seus instrumentistas, antigos companheiros, e com aquele ''pessoal alegre e bacana'' da MTV. Trinta e nove músicos de orquestra foram convocados para a ''festa'', regida por um time de oito maestros.
Entre eles, Rildo Hora, produtor e amigo de muitos anos. Foi dele a escolha das canções das décadas de 40 e 50, como ''Beija-me'' (Mário Rossi/Roberto Martins), de 1943 - que está tocando nas rádios há cerca de 20 dias -, e ''Pisei num Despacho'' (Elpídio Vianna/Geraldo Pereira), de 1958 - sucesso de Cyro Monteiro. O CD tem ainda Cartola (''Tive Sim'') e Monarco (''Lenço'', parceria com Francisco Santana - a faixa teve a participação da Velha Guarda da Portela, sempre presente nos discos de Zeca).
De Pagodinho, que este ano celebra duas décadas na indústria fonográfica, foram incluídas as popularíssimas ''Judia de Mim'', composição com Wilson Moreira, ''Quem É Ele'''', dele e de Dudu Nobre, e ''Ai Que Saudade do Meu Amor'', com Arlindo Cruz. E ainda ''Dona Esponja'' (Barbeirinho do Jacarezinho, Marcos Diniz, Luiz Grande - trio que emplacou outra, ''Sururu na Feira''), ''Casal Sem-Vergonha'' (Arlindo Cruz/Acyr Marques), ''Cabô, Meu Pai'' (Moacyr Luz/Luiz Carlos da Vila/Aldir Blanc), ''O Pai Coruja'' (Zé Roberto) e ''Minta Meu Sonho'' (Jorge Aragão).
As inéditas se destacam. A divertida ''Ratatúia'' (Roberto Lopes/Canário/Alamir), Zeca ouviu durante a gravação do seu último CD, ''À Vera'', do ano passado, e não tirou mais da cabeça. ''Exaustino'' - uma daquelas canções que revelam tipos engraçados (no caso, um preguiçoso que só quer saber de comer e dormir) - foi cantarolada numa roda de samba no aniversário de seu filho, na casa de Xerém, na Baixada Fluminense.
''Quando a música é boa, percebo logo. Eu estava na churrasqueira e ouvi de longe. Gritei logo: 'Canta de novo aquela'', lembra o cantor, que se orgulha do ''dom'' para farejar sucessos. ''Eu não levo carta errada'', brinca. Quando a ''Gira Girou'' (Serginho Meriti/Claudinho Guimarães), outro lançamento, foi escolha de Rildo, que, nas palavras carinhosas do cantor, é alguém que ''faz tudo certo, sempre''. O produtor devolve a gentileza - costuma dizer que ''tem aprendido muito com Zeca''.
O clima de camaradagem se estende aos músicos da orquestra. Inicialmente reservados, eles logo entraram no clima de Zeca. ''Eu virei para eles e disse: 'Vocês estão muito devagar. Ninguém bebe, não?' E chamei para uma mesa para beber uma cachaça, uma cerveja, comer um fígado acebolado, que mando trazer lá de casa'', lembra. ''Eles foram aos poucos; depois, fui ver e tinha uma fila. Comigo é assim, é uma zoeira danada.''
O programa da MTV, dirigido por Joana Mazzucchelli, incluiu 14 músicas. O CD, com 16, já está nas lojas. Em novembro, sai o DVD, que tem oito faixas a mais, além de memoráveis participações, como a do veterano cantor Miltinho, um dos ídolos de Zeca.


