Um crianção mimado, preguiçoso, ambicioso, inseguro, incapaz de aprender a música que cantava e, ainda assim, o tenor das multidões, o homem que virou símbolo da ópera no século 20, uma das estrelas mais festejadas e bem pagas do show business mundial. Luciano Pavarotti é um fenômeno: uma voz poderosa, instintiva, um homem repleto de contradições. E, com o lançamento da biografia de seu empresário Herbert Breslin e de um pacote de 3 DVDs em edição nacional, a gente volta a se perguntar: à medida em que o tenor anuncia para 2005 uma turnê de despedida com 40 concertos, como explicar o mito Pavarotti?
O livro de Breslin, ''The King and I'' (O Rei e Eu, lançamento em inglês da Doubleday, que pode ser encomendado na Livraria Cultura, tel. (011) 3170-4033), oferece algumas respostas. É uma biografia de sua relação com o tenor. Pavarotti foi seu primeiro trabalho como empresário - antes fazia as vezes de assessor de imprensa de estrelas como Renata Tebaldi e Joan Sutherland. Ele conta que sentiu no jovem tenor do interior da Itália os elementos que poderiam fazer dele a maior estrela do mundo da ópera: bonachão, com uma voz sem precedentes, ''e a compreensão do que era o marketing, do que era preciso fazer para se atingir o objetivo que tínhamos em mente''.
O mito Pavarotti foi construído cuidadosamente. Breslin começou com alguns recitais pelo interior dos EUA: queria ver se o público gostava dele e se ele gostava do público. A química foi instantânea. E o trabalho do empresário foi explorar este potencial: do recital para a ópera, da ópera para o ginásio do Madison Square Garden e, de lá, para os grandes estádios do mundo. Em termos financeiros, estamos falando dos US$ 10 mil de uma récita de ópera aos, muitos anos depois, US$ 2,3 milhões por cada concerto dos 3 Tenores.
Esta é uma das leituras possíveis do livro. A outra é aquela que nos leva pelos bastidores dos 40 anos da carreira do tenor. São histórias de vaidades, de relacionamentos frustrados com secretárias, da avidez cada vez maior por dinheiro, da rivalidade com colegas. É também o conto de uma fila enorme de exageros: lá pelas tantas, a gente fica sabendo que todo um restaurante de Módena foi levado para a China (fogões, geladeiras, cozinheiros, ingredientes etc.) porque o tenor tinha medo de não encontrar nada que prestasse para comer em sua ida a Pequim.
E há ainda os bastidores musicais. Que Pavarotti não sabe ler uma partitura não é exatamente novidade. Mas impressiona o relato dos subterfúgios usados para ''enfiar'' a música dentro dele, desde a contratação de uma batalhão de pianistas para ensaiar com ele até a distribuição de alguns deles entre os figurantes durante as apresentações. Era difícil achar um maestro que quisesse trabalhar com ele, que os tratava como lixo: mas, como viver sem os teatros lotados que sua presença garantia? Breslin não diz isso com todas as letras, mas deixa claro livro adentro: Pavarotti tornou-se um mal necessário.
Um mal necessário. Mas como, então, esse homem tornou-se o fenômeno de público e de vendas? Aí vale a pena ver e ouvir os DVDs lançados em uma caixa em edição nacional da Universal para perceber que nem tudo é marketing. O primeiro é um recital com piano em Nova York; o segundo, um concerto de gala pelos seus 30 anos de carreira; o terceiro, seu famoso concerto no Central Park em 1993.
Juntamente com a polêmica a respeito de seus casos com secretárias, a separação da mulher e o novo casamento com uma mulher 35 anos mais nova, ou sua famosa briga com o fisco italiano - na década de 90, ele devia algo em torno de US$ 10,5 milhões em impostos atrasados -, houve um momento em que bater na voz de Pavarotti tornou-se o esporte preferido de críticos mundo afora.
É claro que ele ajudou. Cantou com U2, Mariah Carey, Tom Jones, Sheryl Crown, Ricky Martin, em concertos nos quais está claramente desconfortável, incapaz de seguir as letras ou mesmo as melodias de canções populares, ''jogando na privada a carreira que trabalhamos tanto para construir'', nas palavras de Breslin. Mas mesmo na ópera as coisas não andaram bem. A escolha equivocada de papéis, como o constrangedor Otello com Georg Solti, ou os cancelamentos de récitas com ingressos na casa dos US$ 2 mil criaram um sentimento anti-Pavarotti. O tenor das multidões simplesmente não soube parar na hora certa.
Tudo isso é verdade, mas volte aos DVDs. No do recital com James Levine, após pouco mais de uma hora de canções italianas, há um pequeno documentário sobre Pavarotti. E lá, a gente encontra alguns registros do início da carreira do tenor, como o Réquiem de Verdi em 1967 com Karajan ou um Rigoletto em Tóquio, dois anos mais tarde. Tudo no canto de Pavarotti é instintivo - e não dá para negar que, em muitos sentidos, a ópera seria outra sem essa voz.

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