MÚSICA - O novo rock britânico
PUBLICAÇÃO
sábado, 20 de março de 2004
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
Há tempos, ensaia-se uma explosão de bandas britânicas capaz de rivalizar com o festejado ''novo rock'' norte-americano, surgido na esteira dos Strokes e dos White Stripes. A ânsia teria se transformado numa obsessão em Londres e adjacências, onde cada single passou a ser aguardado como a ponta de lança de uma triunfal guinada.
A escassez de grupos talentosos, porém, é notória. Tornou-se flagrante nas últimas temporadas, a ponto de favorecer a ascensão de mediocridades como o quarteto poser The Darkness, que abocanhou os troféus de melhor banda, melhor banda de rock e melhor álbum no recente ''Brit Awards''. Para os editores das publicações pop inglesas, contudo, todo dia é dia de descobrir bandas (supostamente) geniais no mundinho das guitarras indies.
A aposta da vez é o grupo escocês Franz Ferdinand cujo álbum de estréia homônimo será lançado no próximo mês no Brasil pela gravadora Trama. Mas nomes como The Veils, Longview, Razorlight, Eastern Lane e Keane também começam a atrair os holofotes figurando como promessas para 2004. Franz Ferdinand, a mais badalada da frota, emprestou seu nome do arquiduque austro-húngaro cujo assassinato desencadeou a Primeira Guerra Mundial.
Seu primeiro CD traz um repertório heterogêneo sugerindo influências diversas, que incluem de Talking Heads (boa parte das faixas) ao tecno pop dos anos 80 (particularmente em ''Auf Ausche'', com sua bateria ''disco'' e tecladinho grudento). A fragmentação das harmonias, herança pós-punk assimilada pelas novas bandas nova-iorquinas, liga o grupo à tendência dominante no outro lado do Atlântico.
A faixa dançante ''Tell Her Tonight'', com suas guitarras funkeadas, poderia ser confundida com alguma composição do The Rapture. Já as vigorosas ''Darts of Pleasure'' (1º single do grupo) e ''Jacqueline'' garantem a dose de proteína ruidosa para quem aprecia rock energético sem firulas. ''This First'', por sua vez, fornece o refrão mais aliciante e os riffs mais certeiros do CD.
O disco talvez nem mereça o entusiasmo com quem foi recepcionado no Reino Unido, embora traga boas faixas. Franz Ferdinand é apenas a primeira banda novata ''eleita'' do ano, a escolhida para inaugurar a sucessão de hypes promovida habitualmente pela mídia pop local. O disco está longe de ''salvar'' o rock britânico, como dizem por aí, tampouco de despontar antecipadamente numa lista de prováveis melhores álbuns de 2004.
O quarteto The Veils é outro que tem despertado a atenção, especialmente por trazer como vocalista o garotão Finn Andrews, filho do tecladista Barry Andrews, ex-integrante da banda XTC. Seu álbum de estréia, batizado ''The Runnaway Found'', traz produção de Bernard Butler, ex-guitarrista do Suede. As credenciais, porém, não escondem a falta de personalidade de Andrews e seu grupo.
A cada faixa, parecem xerocar um vocalista ou uma banda de renome do Reino Unido. Na canção de abertura, ''The Wild Son'', emulam sem disfarces Stephen Morrissey e os Smiths. Em ''Lavinia'' remetem a Brian Molko e o Placebo. Já em ''The Tide That Left And Never Come Back'' copiam Brett Anderson e o Suede. O tráfico de influências prossegue em ''Vicious Traditions'', na qual bebem na cartilha de Thom Yorke e o Radiohead.
É possível detectar semelhanças ainda com o The Verve e o Starsailor aqui e ali. A banda oferece canções amenas para voz, violão, teclados, guitarras dedilhadas e cordas eventuais. Mas a ausência de identidade grita em cada acorde ou inflexão vocal de seu disco de estréia. O mesmo problema afeta a banda Razorlight que, depois de lançar dois singles, entrou num estúdio em Londres para finalizar seu primeiro álbum.
Uma caçada na Internet, porém, é capaz de garimpar pelo menos 12 canções do grupo incluindo faixas de demos. Com o frontman Johnny Borrel já estampando páginas na imprensa especializada, Razorlight é filhote postiço do The Clash, o que se evidencia em faixas como ''Rock'n'roll Lies'', ''When He Was 20'', ''Stumble And Fall'' e no ska ''Yes, You Should Know''. Já em ''Rip It Up'', o primeiro single, apresentam guitarras irresistíveis à la The Strokes.
O terceiro single, ''Golden Touch'', junta voz, riff e apelo pop contaminador. Está previsto para chegar às lojas no dia 10 de maio, seguido do álbum ainda sem título. Já o trio Keane, de Battle (Inglaterra), acaba de lançar seu primeiro disco completo após empolgar críticos respeitáveis com seus singles um deles, com a balada ao piano ''This is The Last Time'', foi considerado um dos melhores singles da história do selo Fierce Panda (que revelou Coldplay, Supergrass e Idlewild) pelo colunista e DJ Steve Lamacq.
Seu álbum, entretanto, é sofrível penalizando os tímpanos do ouvinte com pop songs inócuas decalcadas de hits do Coldplay. A banda Longview, ao contrário, parece imprimir marca própria no CD ''Mercury'', seu primeiro trabalho. A musicalidade genuína, contudo, não basta para compor canções memoráveis. Longview é de Manchester.
Tem como grande trunfo o vocalista Rob McVey, de timbre sóbrio e melancólico. A banda trabalha no limite entre a delicadeza melódica e o romantismo cafona de pop comercial. Em ''Further'', a melhor faixa, combina suavidade vocal, dedilhados, cordas e cascata de guitarras dissonantes. Há também a emotiva ''Cant' Explain''.
O resto do repertório perde o fôlego desabando no baladismo lacrimejante, predominante no pop inglês há pelo menos quatro anos desde o estouro de Coldplay e Travis. Também debutando no mercado fonográfico, o quarteto Eastern Lane é outro caso inexplicável de banda paparicada sem motivo pela mídia. Oriundo de Berwick (Inglaterra), o grupo cava a própria cova a partir da voz hesitante e áspera do vocalista Derek, um autêntico espanta-ouvintes.
Elogiado por escribas deslumbrados, seu álbum de estréia ''Shades of Black'' empilha canções acústicas aguadas, com duas ou três concessões a músicas mais sacolejantes. A faixa ''Dead July'', que abre o CD, engana. Exemplar de pop perfeito, cativa com levada pop e guitarradas lancinantes. Mas é a única que se impõe em meio à tralha.
Nenhum álbum, todavia, é hoje escandalosamente fora-de-série. Só algumas canções. É possível peneirar uma ou outra nesta fornada de gravações.


