MÚSICA - No batuque da cidadania
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terça-feira, 30 de agosto de 2005
Ana Paula Nascimento<br> Reportagem Local 
O som é forte e envolvente. Surdos, tamborins, reco-reco, agogô, caixa, ganza compõem uma ''orquestra'' de percussão onde além de aprender a tocar os intrumentos musicais, os participantes descobrem a oportunidade de resgatar valores que podem proporcionar uma melhoria na qualidade de vida. Criado em 1999, o projeto ''Batuque na caixa'' já ensinou música para 4,7 mil crianças e jovens da periferia da cidade, com ênfase em instrumentos de cordas e percussão, dentro dos conceitos da música brasileira (folclórica, popular e erudita).
Atualmente o projeto está realizando aulas de música na Escola Estadual São José, no Jardim Leonor. Em sistema de contraturno cerca de 250 alunos da escola, do bairro e de locais próximos se beneficiam das aulas de música. Tendo sempre como objetivo a formação dos alunos, neste ano o projeto também está desenvolvendo a atividade ''A música na minha vida...'' onde através da contação de histórias, sob coordenação de Claudemir Galhardo, os alunos aprendem sobre a trajetória dos compositores brasileiros. No cronograma estão previstos a trajetória musical de Luiz Gonzaga, Villa-Lobos, Geraldo Vandré, Camargo Guarnieri, Radamés Gnattali, Edson Zampronha, Raul Seixas e Hermeto Pascoal. Dentro da proposta de workshops musicais, no mês de agosto o enfoque foi violão popular. Até o final do ano, os alunos vão passar pelo aprendizado de maracatu, samba e capoeira.
Dentro desse universo musical, os alunos também colocam em prática na própria escola o que aprendem. Na próxima segunda-feira, um grupo de alunos irá tocar no hasteamento da bandeira. A música ''Asa Branca'' será cantada com acompanhamento de violão e percussão. A partir do próximo mês os alunos já começam a ser requisitados para apresentações externas. No ano passado, integrantes do projeto fizeram apresentações na Festa Nordestina e no Londrina Matsuri. ''Como também objetivamos a capacitação profissional dos nossos alunos, é importante que eles adquiram domínio de palco e percam a inibição''. comentou o fundador do projeto, o músico e compositor Aldo Moraes.
Na sua opinião, o projeto além de ser uma forma de resgatar a cidadania dos alunos é uma forma de valorizar o ambiente da escola através da música e da arte. ''Temos uma postura bastante aberta aos interessados em aprender música e buscamos não ter um enfoque burocrático. Desenvolvemos um ambiente em que os alunos, muitas vezes considerados ''difíceis'', não se sintam marginalizados'', afirmou Moraes. Como consequência natural, os alunos acabam melhorando na escola e se reintegrando à família e à sociedade. ''A música tem uma sedução própria que os ajuda a nortear um caminho melhor. Nada é imposto.''
Desde a criação do projeto, 20 ex-alunos se profissionalizaram e seis deles trabalham como instrutores do projeto. Um deles é Edson Amorim Santos, 17 anos, de Ibiporã. Aos 11 anos começou a fazer parte do projeto e, como já tinha um bom conhecimento prévio de música, um ano depois já ajudava outros instrutores. Com o apoio do projeto, acabou conseguindo uma bolsa de estudos do Colégio Mãe de Deus para estudar violão clássico e teoria musical. ''Gosto muito de ensinar música e fico feliz ao perceber a alegria deles quando aprendem. Além de estudar música, valorizamos o diálogo e mostramos que eles podem se destacar na sociedade através da música'', ressaltou.
A alegria de tocar violão está estampada no rosto da aluna Janaíne Moura de Carvalho, 16 anos. Ela é moradora do Jardim Leonor e faz parte do projeto há dois anos. Aluna do segundo colegial, pretende fazer vestibular para Direito, mas sem abrir mão de praticar o violão. ''Não pretendo seguir a carreira profissional, mas é um lazer muito bom. Não é barulhento e a música tem o dom de aproximar as pessoas'', comenta a aluna, que acrescentou que recebe todo o apoio da família para continuar com as aulas.
Em 2002, o ''Batuque na Caixa'' gravou o CD ''Arte Brasilis'', com um painel da música brasileira. No ano anterior, integrantes do projeto se apresentaram com o Olodum, na Bahia, e com o músico Naná Vasconcelos, em Londrina. O projeto recebe apoio da Caixa Econômica Federal (CEF). O Instituto Cultural Arte Brasil, que coordena o Batuque na caixa, está buscando apoio para captar recursos para o projeto ''Treinamento Musical Para Jovens Carentes'', aprovado pela Lei Rouanet e que visa possibilitar a continuidade e aperfeiçoamento de alunos adiantados do projeto. Mais informações pelo site
www.tramavirtual.com.br/batuque_nacaixa


