MÚSICA - Nelson Freire faz concerto único em Londrina
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quarta-feira, 07 de dezembro de 2005
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
Na era da celebridade instantânea, qualquer fulano ou sicrana é capaz de obter notoriedade em proporção diametralmente inversa à de sua mediocridade. Talvez por isso, o talento do mineiro Nelson Freire tenha demorado décadas para projetar-se em grande escala no País, vindo à luz apenas recentemente com o sucesso de um documentário sobre sua vida e obra.
Maior pianista brasileiro e um dos maiores do mundo, segunda a crítica internacional, Freire desembarca hoje em Londrina para se apresentar no Teatro Marista. O concerto começa às 20h30 como um dos pontos altos da programação cultural na semana de aniversário da cidade. A peculiaridade é que os dedos do artista irão batizar um exemplar do piano de cauda Steinway, instrumento nobre adquirido pela Associação Artis Colegium com recursos obtidos através da Lei Rouanet (Lei Federal de Incentivo à Cultura).
O programa do concerto reúne peças de Mozart (''Sonata K331'', em Lá Maior), Beethoven (Sonata op. 27/2 ''Ao Luar''), Debussy (''Reflets dan L'Eau Poissons d'Or'') e Schumann (''Carnaval'', op. 9). Esta última foi incluída como uma homenagem à primeira visita do pianista à cidade, em 1963, quando executou a composição pela segunda vez diante de platéias. Na época, estava com 19 anos e com um currículo já respeitável. De lá para cá, ele acumulou prêmios e prestígio.
Para ficar nos anos recentes, vale lembrar que Freire foi o único brasileiro incluído pela Philips na série ''Os grandes pianistas do século XX'', que mapeou a história do piano nos últimos cem anos e organizou uma lista de 74 nomes de diferentes gerações e nacionalidades. Disponível em um total de 200 CDs, a série pode ser considerada um dos atestados de maior credibilidade do reconhecimento internacional ao percurso do artista.
Também há pouco, ele foi eleito o ''Solista do Ano 2002'' pela revista French victoires de la Musique, especializada no gênero. Esse prêmio equivaleria, na música erudita, ao Cesar no cinema. Os discos também ajudaram a consagrá-lo no exterior. Há dois anos, o CD dedicado a Chopin foi contemplado com os principais prêmios franceses, como o Grand Prix du Disque. Ainda de Chopin, a gravação de seus prelúdios rendeu ao músico o cobiçado Prêmio Edison, em 1972, na Holanda.
Com a carreira direcionada para os concertos, o pianista ficou quase duas décadas e meia sem gravar. Em 2001, interrompeu a longa pausa assinando um contrato de exclusividade com o selo Decca Records (da Universal), pelo qual tem lançado discos com regularidade. Radicado em Paris, ele já se apresentou como solista nas principais orquestras do mundo, entre elas as filarmônicas de Berlim, Israel e Nova York, além das sinfônicas de Londres e Viena.
Sua trajetória internacional iniciou-se ainda na adolescência. Menino prodígio, fez o primeiro recital aos quatro anos na pequena cidade mineira de Boa Esperança, onde nasceu em 18 de outubro de 1944. Tinha 3 anos quando começou a tocar, de memória, obras inteiras que ouvia sua irmã mais velha ensaiar no piano. Filho de um farmacêutico e de uma professora, ele fez com que os pais se mudassem para o Rio de Janeiro, aconselhados por um professor de Varginha, o uruguaio Fernandez, que vislumbrou nele um gênio precoce.
No Rio, foi pupilo da pianista Nise Obino, com quem alçou vôo para a futura carreira. Aos 12 anos, ganhou o Concurso Internacional de Piano do Rio de Janeiro, o que lhe rendeu uma bolsa de estudos em Viena (Áustria) concedida pelo então presidente da República Juscelino Kubitschek. Influenciado pela pianista Guiomar Novaes, foi conquistar o mundo. Renomado nos círculos eruditos, optou por uma vida recatada, avessa à aparições na mídia.
A mesma discrição pode ser conferida em suas performances, nas quais mal movimenta as mãos, o oposto de pianistas espalhafatosos que golpeiam os teclados em lances de falso brilho. Sem assessorias de imprensa ou marketing para promovê-lo, Freire permaneceu um desconhecido para o grande público até o documentário de João Moreira Salles chegar às telas e locadoras arrancando-o da relativa obscuridade em seu País.
Leia entrevista com Nelson Freire na página 3.


