A obra de Gilberto Gil ganha dimensão instrumental e jazzística no disco "Amor Até o Fim", que o saxofonista Mauro Senise acaba de lançar. Gil fez sua glorificação na voz, criando suas maravilhas dentro de um processo de composição no qual poesia e melodia se tornaram quase que indissociáveis. Pode ser esse um dos motivos que fazem sua obra não ser mais visitada por intérpretes do mundo instrumental e sinfônico.
Senise disseca o Gil músico quando extrai dele apenas o som. Ao contrário do complexo pensamento harmônico de Edu Lobo, revisitado por Senise no disco Casa Forte, de 2006, Gil atua com a simplicidade transformadora que carrega de Luiz Gonzaga e Dorival Caymmi. Simples até o pulo do gato. Suas cartas na manga aparecem ao acaso, não na concepção. Enquanto Edu ergue um monumento de tijolos encaixados, seguindo um projeto arquitetônico, Gil constrói uma cabana de palha que, de repente, se torna um castelo.
Sua linguagem sai, assim, por força da natureza, não do estudo. E, assim, chega onde nem todo o estudo pode chegar. É o que mostra Senise, com um caráter musical intacto ao servir a obra de Gil sem querer sobrepor-se a ela.
Gil aparece na declamação de Preciso Aprender a Ser Só. Um acerto escrito por linhas tortas. Ele estava no Rio, prestes a sair em turnê, quando teve o convite de Senise. Fez no próprio estúdio a declamação e mandou ao saxofonista. Sua fala, mesmo sem cantar, inverte o jogo. Aqui, ouvimos apenas a voz, a poesia e a dor de Gilberto Gil.

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