MÚSICA - Gil flerta com a música eletrônica
PUBLICAÇÃO
sábado, 14 de agosto de 2004
Jotabê Medeiros<br> Agência Estado 
Como ministro, Gilberto Gil está sempre no meio do embate (está no meio de um grande bafafá agora). Como cantor, no entanto, Gilberto Gil é sincero: tem feito o que pode. O show ''Eletracústico'', que ele estreou na sexta-feira, no Directv Music Hall, em São Paulo, é um show ''de oportunidade'', como define. Foi o que lhe foi possível fazer, acrescenta.
''Não é uma escolha conceitualizada, não há tematização. Foi apenas uma idéia que me deu a oportunidade de fazer alguma outra coisa, de simplificar o trabalho que eu vinha fazendo com uma banda grande'', ele explica.
''Eletracústico'', no entanto, não é um trabalho menor, ele adverte. Tanto que vai virar disco (em outubro, ele entra em estúdio para produzir o novo álbum, que sairá provavelmente em novembro pela Warner).
O conceito do disco revela um flerte com a música eletrônica. Ao lado do parceiro Marcos Suzano (percussionista e amante da eletrônica, protagonista de um encontro memorável no Free Jazz Festival com o indobritânico Talvin Singh), Gil promoveu uma releitura de alguns dos seus sucessos. A releitura é uma espécie de ''antidrum'n'bass'', já que ele extirpou bateria e contrabaixo da sua formação clássica de palco.
''Na verdade, o que faço é um drum'n'bass sem baixo e bateria, com essas instruções exercidas por outros instrumentos, com samples, violão, acordeão e midi. Estou me divertindo com a pesquisa sonora''.
Gil conta que a gênese desse trabalho foi durante uma performance que fez na sede das Nações Unidas, em Nova York, naquele célebre show em que o presidente da ONU, Kofi Anan, assumiu a percussão. Depois, ele o ''anabolizou'' para apresentar no Rock in Rio, em Lisboa. ''São exercícios, brincadeiras sonoras com um potencial de surpresa, de estranheza. Tudo permeado por um repertório de canções conhecidas'', assume.
Entre essas canções, estão ''Chuck Berry Fields Forever'', ''Refavela'', ''Toda Menina'', ''Soy Loco'', ''Expresso 2222'', ''Não Chore mais'', ''Asa Branca'', ''Three Little Birds'', ''Aquele Abraço'' e ''A Novidade'', entre outros.
Ele pôs o nome ''eletracústico'' para diferenciar do conceito de música eletroacústica, mais próximo da composição erudita. ''O tema eletroacústico reage muito mal à música eletrônica. Outro dia li um artigo de um músico eletroacústico que criticava a apropriação dos DJs. Eu me sinto à vontade com essa apropriação. Acho que os DJs estão tentando desenvolver uma cultura dessa linguagem, e exercem uma musicalidade nesse processo'', diz.
De inédito, não haverá nada no show. Gil está trabalhando num disco de sambas, mas este só virá num futuro não muito próximo. Ele já tem 9 sambas escolhidos e, desde que se tornou ministro, só uma canção nova, ''Máquina do Ritmo''.


