Curitiba - Desde que assumiu o Ministério da Cultura no governo petista, há dois anos e meio, o músico baiano Gilberto Gil tem falado muito mais de política do que de música. Para ele, isto é um processo natural, resultado da sua própria escolha, e por isso mesmo não representa nenhum tipo de frustração. Em entrevista exclusiva, por telefone, à Folha 2, Gil confessa que sua produção artística está em baixa. ''Mas porque faço menos, faço com mais prazer''. É toda essa ''condição prazerosa'', como o próprio Gil define, está refletida no show ''Eletracústico'', que o ministro-músico apresenta hoje em Curitiba.
O show, resultado da gravação de um CD e DVD homônimos, está em turnê há um ano, mas chega pela primeira vez em Curitiba para uma única apresentação. ''O principal conceito do trabalho é manifestar as diferenças e compatibilizações do elétrico e do acústico'', conta. O repertório surgiu de uma experiência, digamos, ''pacifista'' vivida por Gil e do trabalho como ministro junto a Organização das Nações Unidas (ONU). Na sede da ONU, ele também apresentou algumas músicas do repertório que mostra hoje.
Apesar de não trazer nenhuma composição inédita e do ofício de compositor, Gil está afastado desde que assumiu o cargo político , o repertório do disco, do DVD e do show, é feito de boas lembranças e igualmente boas interpretações.
Constam, por exemplo, as saudosas ''Aquele abraço''; ''Andar com fé''; ''Se eu quiser falar com Deus'', todas de Gil; alguns resgates de Bob Marley e releituras de parcerias com Capinam, como ''La lune de Goreé'' e ''Soy loco por ti América''.
E mesmo com todo esse trabalho ''saindo do forno'', Gil já adianta que o seu próximo disco será calcado no samba. ''Eu tenho pensado nisso, mas tenho pensado vagarosamente, sem contar com uma previsão'', revela Gil. Isso porque o trabalho político realmente mudou a rotina do músico que aprendeu as primeiras notas ainda na infância e se transformou num dos principais ícones da MPB. ''De qualquer forma, eu estava cansado da rotina intensa de música. Agora minha vida está menos enfadonha'', brinca Gil.
Ainda que a figura pública do baiano esteja um tanto confusa e seja difícil separar o artista do político, Gil faz um balanço apenas da experiência na pasta de Cultura, uma novidade na carreira do músico. ''Acho que temos feito um bom trabalho'', diz, assim mesmo no plural. ''A nossa meta é fortalecer a cultura no país e buscar recursos para que isso aconteça. Embora muitas vezes inexperiente, nossa equipe é muito competente e a avaliação é positiva.''
O ministro não esteve presente, mas há duas semanas, representantes do Ministério da Cultura estiveram em Curitiba para marcar uma das primeiras assinaturas que devem desembocar no Sistema Nacional de Cultura. ''Já temos seis estados envolvidos, mas até o final do ano devemos ter pelo menos 20, o necessário para fazer um Plano Nacional''. O ministro explica que isso deve dar agilidade às reinvindicações de recursos e às determinações de prioridades para melhorar a gestão cultural em todos os estados e municípios participantes.
E no caso da reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e um possível convite para continuar no cargo, Gilberto Gil é categórico: ''Não existe nada que me impeça de continuar. Eu gostaria. Mas daqui a um ano e meio, a gente vê.''

Serviço:
- Gilberto Gil e banda no show Eletracústico. Hoje, às 21 horas, no Teatro Guaíra. Ingressos a R$ 75,00 (platéia); R$ 70,00 (primeiro balcão) e R$ 60 (segundo balcão).
Hoje , excepcionalmente, deixamos de publicar a coluna Reality Show, de Célia Musilli.

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