MÚSICA - Foi nos bares da vida...
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sábado, 05 de agosto de 2006
Francismar Lemes<br> Reportagem Local 
Para contar um acorde da história da Música Popular Brasileira (MPB) em Londrina, nada melhor do que começar com uma nota mais colorida de um episódio da década de 80, que aninhou em seus braços, nomes que fizeram sucesso na noite londrinense.
Nessa ronda pela história, deixamos o palco livre para ouvir o esculacho que o músico Caçulinha levou ao ser confundido com um típico personagem da noite, que ainda aporrinha quem realmente está ali para dar o show ao querer soltar a voz ou tocar de improviso.
''Pô bicho, não dá para dar uma canja coisa nenhuma'', esbravejou a cantora Márcia Santos para o músico famoso, confundido com um chato qualquer.
Noutra investida, o suposto mala sacou de um argumento infalível, obrigando Márcia a dividir o palco com ele ao teclado: ''Vou falar com o dono da casa''.
''Quando o cara começou a tocar, fez uma harmonia do cacete para a música 'Feitio de Oração'. Pensei que devia ser alguém muito bom mesmo. Ele disse que tocava com a Elizeth em fá e eu costumava cantar em sol. O cara me pediu desculpa e foi aí que acabei pedindo perdão porque só então fiquei sabendo que era ninguém menos que o músico Caçulinha. Dei bronca no Caçulinha cara! Coisa de cantora cega'', conta Márcia, arrematando a conversa com bom humor e saudade da velha boemia. A cena foi protagonizada no antigo bar Do-Ré-Mi, sendo o próprio estabelecimento personagem da história da MPB londrinense, como outras casas, entre as quais o Cantinho, Dunas, Chaplin, Restaurante San Remo, Zanzibar, Clube da Esquina, Água Viva, Coração Melão, Lumiar, Café Sete e Metrô 21.
Hoje, os músicos e o público que frequentaram os anos 70, 80 e 90, sentem que chegaram a pé ao século 21, perguntando por onde anda aquela velha calça desbotada que transformou a boemia. Um modelo que não deveria ter saído de moda ao revelar nomes como Mizael, Denilson, Lena Mariano, Tigrão, Walter Martins e os irmãos Márcia, Marta e Marcos, entre outros.
Poucos conhecem Olício da Silva, mineiro de Ouro Fino, e que desde 1973 adotou Londrina. Porém, se ele se apresentar como Tigrão, aí fica fácil reconhecer o músico. Tigrão chegou a ser levado por Elis Regina para o Rio de Janeiro. O contato com a cantora começou porque namorou Lena Mariano, irmã do pianista, arranjador e compositor César Camargo Mariano. Lena morou em Londrina e há alguns anos está nos Estados Unidos.
''Na época em que cheguei a Londrina, a sociedade frequentava muito as casas noturnas, o que hoje não acontece. Antes havia uma mistura entre as classes média e a alta. As pessoas passaram a se encontrar demais nos bares e restaurantes. Eu vi casos de ricos, que não queriam topar com a empregada doméstica numa casa noturna'', afirma Tigrão numa avaliação sociológica de alguém que acompanhou a noite até como empresário. Durante 20 anos, ele esteve à frente da Tigrão Casa de Samba, que funcionava na Rua Samuel Moura, paralela à Avenida Maringá, corredor gastrônomico e de barzinhos históricos.
Já Walter Martins começou a cantar na noite aos 15 anos de idade na boate One Way. ''Acho que foi o público que mudou. Quem frenquentava os bares eram universitários e profissionais liberais, sendo a única diversão para os estudantes. No Coração Melão, onde me apresentei, chegamos a ter oito músicos no palco. Os artistas conseguiam sobreviver de música. Fiz faculdade de jornalismo assim. Mudou também o estilo de fazer a noite. Hoje é só modismo. O bar era uma forma de extravasar'', comenta Martins.
Marta foi a primeira dos irmãos Santos a começar na noite. Ela entrou pela porta que hoje, a maioria dos candidatos ao sucesso pretende chegar, iniciando a carreira como apresentadora de um programa de TV. ''Antes só aparecia quem é músico de verdade. Nós por exemplo, viemos de uma família de músicos. O meu pai já tocava violão. Eu desde os 12 anos me apresentava em corais de igreja. Hoje, o que a gente vê são pessoas querendo mais ser artista do que pisar num palco e cantar'', critica Marta.
A aquarela de músicos de MPB dos anos 70 até 90 tinha uma variedade de cores, que não cabem numa mão de Tigrão, que relaciona ainda Paulinho, que desembarcou na cidade, vindo de São Paulo, Davi, que atualmente está na Espanha e Filó, que chegou a ser pianista do cantor Djavan.
''As nossas rádios estão educando errado o nosso público. Samba saiu do ar. As pessoas acima dos 30 anos não têm mais o que ouvir. Isso também tornou díficil o trabalho para os músicos. Naquela época chegamos a ter 56 bares, com gente tocando'', ressalta Tigrão, que considera ainda que faltam novos compositores, que apresentem um trabalho poético, com sentido político ou amoroso, sendo que a própria música está perdendo valor, como uma arte eterna.
Márcia Santos, que atualmente faz parte de um grupo de chorinho em Curitiba, traz na bagagem um repertório que conhece bem, apesar de às vezes ficar cheia pelo número de repetições que é obrigada a fazer numa noite. ''O repertório que atravessou o tempo tem músicas como 'Ronda', 'Andanças' e 'Espanhola'. Mas é sempre o mesmo que o povo pede 800 vezes numa noite. Tem música que pelo amor de Deus'', desabafa a cantora ao que Martins acrescenta que o músico nunca gosta de se sentir um rádio.
''Apesar disso, no barzinho, o público tinha a chance de pedir e ouvir uma determinada música na hora. Isso é uma ferramenta importante. Tinham pessoas que chegavam a idealizar a gente. Quando gravei o meu primeiro vinil foi um êxtase'', lembra Martins, ressaltando que o artista é que levava o público às casas noturnas que eram frequentadas também por nomes célebres da MPB. Vinicius de Moares teve uma namorada em Londrina, lembra Tigrão, que conta que o Poetinha chegava a dormir em um bar da cidade.
O mundo artístico brasileiro que frequentava Londrina produziu histórias pitorescas, como no dia em que Caetano Veloso entrou e saiu do Clube da Esquina sem por os pés no chão. ''Depois do show, o Caetano disse que queria dar uma volta no Clube da Esquina, onde eu tocava. O carro parou na calçada. Tiraram ele de dentro, segurando-o sem que colocasse os pés no chão. Deram uma volta no bar e saíram, carregando o cantor. Eu só vi a cabecinha do Caetano passando no meio do povo'', diz Martins, fechando a conta.


