Pirataria, falta de mídia ou gravadora, caos urbano, nada afasta a cantora Emilinha Borba do público. A um mês de completar oito décadas de vida (tem mais de 60 anos de carreira) e meio século de sua primeira eleição como Rainha do Rádio, ela está literalmente nas ruas, vendendo seu novo CD ''Emilinha Pinta e Borba'', gravado com R$ 40 mil obtidos com a prefeitura. ''Já que nenhuma gravadora quis distribuir nas lojas, eu mesma saí vendendo'', contava a cantora na semana passada, em plena Praça Saens PeÀa, a mais movimentada da Tijuca, na zona norte do Rio. ''Adoro este contato com o povo e nunca vendo menos de cem discos por dia. Até porque cobro R$ 12,00 por exemplar, metade do preço das lojas, sem risco de pirataria, porque é direto na minha mão.''
Já virou rotina. Cada dia ela está em um bairro diferente, apoiada no projeto CD-Rua, do cantor Majó, nome artístico de José Timóteo Filho, irmão do cantor Agnaldo Timóteo, o primeiro a vender discos de forma tão independente. De início, o público estranha, olha de lado, mas logo chega perto, quer saber da sua vida, como se ela fosse uma velha amiga. A maioria já era nascida quando Emilinha era a Favorita da Marinha, estrela absoluta da música brasileira, tendo a cantora Marlene como única rival à altura. Mas chega também gente jovem, perguntando por hits antigos como ''Escandalosa'', ''Aqueles Olhos Verdes'', ''Catito'', ''Chiquita Bacana''.
Estão com a WEA, que comprou todo o acervo da antiga Continental, onde Emilinha gravou a maior parte de seus 117 discos em 78 rotações, 89 LPs e 71 compactos (duplos e simples), como informa seu site na internet (www.emilinhaborba.mpb.com.br). A gravadora americana não quis lançar essa obra em CD, foi acionada pela cantora e, num acordo extra-judicial, prometeu cuidar disso em 2003. Até agora não há nada nas lojas e o escritório carioca da WEA não responde às indagações sobre o assunto.
E certamente essa é a única forma de ter as gravações antigas de Emilinha porque, no disco novo, só incluiu dois sucessos antigos, o bolero ''Dez Anos'' (de Rafael Hernandez com versão de Lourival Faissal) e ''Se Queres Saber'' (de Peter Pan, que era seu cunhado), que tem participação de Zé Renato. ''Mesmo assim, por insistência da gente, pois ela queria só repertório novo ou então o que nunca tinha cantado'', informa seu amigo e produtor Luiz Henrique, que é compositor, e canta com ela uma música de sua autoria, ''Lugar Comum'', a 13, que fecha o CD. ''Insistimos nessas músicas porque foram lançadas na voz dela e pouca gente sabe disso.''
As outras faixas retratam a irreverência da Rainha do Quarto Centenário do Rio, um dos muitos títulos recebidos ao longo da carreira. ''ETC'', sucesso de Cássia Eller, ficou brejeira e dançante com o ''Forroçacana''. Ney Matogrosso canta com ela ''Não Existe Pecado ao Sul do Equador'' (de Chico Buarque e Ruy Guerra). De Chico tem ainda ''Morena de Angola'' (com Adelaide Chiozzo) e Cauby Peixoto divide a faixa ''Grandes Mitos'' (outra de Luiz Henrique). ''Entre Tapas e Beijos'' (primeiro sucesso de Leandro e Leonardo), com Marlene, reporta, com malícia, à rivalidade entre as duas, que era só marketing. Entre as inéditas, estão ''Não Foi à Toa'', de Altay Veloso e Délcio Luiz (com Luiz Ayrão), citações da clássicos da música brasileira, e ''Sonho de Pernas'', do mineiro Vander Lee.
Emilinha atende a todos como se não fosse uma estrela, mas evita o saudosismo. ''Ando para frente. Essa história de passado é com o meu fã-clube. Eles me vigiam, registram tudo da minha carreira, porque não guardo nada'', avisa. Ela não fala também da idade nem programou festa para o aniversário. Quem cuida disso é o presidente do fã-clube, Mário Lima, o Marinho, que marcou uma missa, no dia 1º de setembro (o aniversário é 31 de agosto), na Igreja Nossa Senhora da Lampadosa, na Praça Tiradentes, no centro do Rio, e um jantar de adesões numa churrascaria de Copacabana. Ele organizou também mostra com fotos, roupas que ela usou em cena, faixas e troféus e uma escola de samba em miniatura contando sua vida e sua carreira. Só falta lugar para armá-la, de preferência onde passe muita gente. ''Ainda estamos negociando o local, mas a exposição vai sair'', promete Marinho. ''Tem de ser um espaço grande porque só a escola de samba tem 5,5 metros de comprimento.''
É o fã-clube também que possui material sobre Emilinha, desde suas primeiras apresentações no Cassino da Urca, apadrinhada por Carmem Miranda. Só com muita insistência, ela conta que sua mãe, Edith Borba, era camareira da maior casa de espetáculos que o Rio já conheceu, amiga da Pequena Notável e ídolo da menina que já se apresentava em programas de calouro nos anos 30. ''Como a gente era pobre, a Carmem se ofereceu para pedir um emprego para uma de nós, eu ou minha irmã. Mamãe contou que eu gostava de imitá-la e ela me levou para um teste com o Joaquim Rolla, dono do Cassino da Urca. Ele me contratou imediatamente'', lembra ela. ''Mas eu só ficava na coxia porque era menor de idade. Aliás, para cantar lá, menti e disse que era mais velha.''
Foi lá que o cineasta Orson Welles a viu e caiu de amores, pela bela e fogosa morena que as fotografias da época mostram. Ele passava temporada no País, tentando filmar aqui com patrocínio do governo americano e quis levá-la para Hollywood. ''Eu era tão novinha que não dei a menor bola para ele. Para mim, isso não tinha a menor importância'', conta, sinceramente blasé. Parece lenda, porém mais de um pesquisador de MPB confirma a história. ''E não me arrependi de ter ficado, porque minha vida foi muito boa. Ainda é.''
Do Cassino da Urca ela foi para o rádio onde se tornou estrela absoluta na ''Nacional''. Seu fã-clube começou aí e dura até hoje, com cerca de 2 mil membros. Seu sucesso no País é comparável ao de Carmem Miranda, mas hoje não tem paralelo, pois agradava à elite e ao povão, que sempre a seguia e a elegia em concursos promovidos pelos jornais, com base em votação popular. Pioneira, foi também a primeira cantora a fazer turnê com patrocínio, viajando pelo Nordeste sob os auspícios do Leite de Rosas (esse mesmo, que existe até hoje). ''O mais interessante é que ela continua atuante'', ressalta Marinho. ''Isso não aconteceu com nenhuma cantora. E sua voz continua ótima. É só ouvir o disco novo para constatar.''
Os shows hoje escasseiam não por falta de solicitações, mas porque ela se guarda para grandes ocasiões. Sem ser rica, ela vive bem em Copacabana. ''Hoje trabalho por prazer, pela alegria de encontrar com meu público porque, como diz Milton Nascimento, o artista tem de ir aonde o povo está. Mas se me chamam para um show bacana, pagando o que mereço, vou na maior felicidade'', diz ela. E o público fica mais contente ainda, como acontece no carnaval do Rio. Ela canta nos vários palcos armados pela prefeitura pela cidade, e comanda o auge da animação na Cinelândia, onde é a atração principal, de sexta à terça-feira gorda. ''Mas hoje está mais difícil, as pessoas saem menos e os clubes não promovem bailes, onde se cantam marchinhas. Mas a gente continua firme, cantando para este Brasil maravilhoso.''

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