MÚSICA - Choro garimpado
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 09 de dezembro de 2003
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
O ímpeto para explorar catálogos empoeirados continua. A coleção ''Choro Grandes Solistas'', que está chegando às lojas, mantém o projeto da gravadora EMI em resgatar títulos antigos e raros de seus arquivos.
A caça ao baú, estimulada pela comemoração dos 100 anos do selo Odeom (celebrada em 2002), parece ter virado norma na companhia. Os iniciados talvez façam pequenos reparos à série de 10 CDs, mas é improvável que deixem de recomendá-la até com entusiasmo ao público em geral.
''Choro Grandes Solistas'' propicia uma viagem a vários períodos do gênero garimpando obras de Pixinguinha (1898-1973), Garoto (1915-1955), Radamés Gnatalli (1906-1988), Abel Ferreira (1915-1980), Altamiro Carrilho, Raul de Barros, Canhoto da Paraíba, Déo Rian, Os Chorões e Conjunto Época de Ouro.
O músico e pesquisador Henrique Cazes, autor do livro ''Choro Do Quintal ao Municipal'', fez a seleção do material. Da incursão pelo acervo, içou 8 títulos originais, limitando apenas ''O Jovem Pixinguinha'' e ''Garoto, o Gênio das Cordas'' à condição de coletâneas.
O painel faz uma rica retrospectiva da tradição instrumental brasileira, ilustrando de forma exemplar o desenvolvimento do choro, desde as inovações adotadas por Pixinguinha ainda nas décadas de 1910 e 1920 até a maturidade do conjunto Época de Ouro em meados dos anos 80.
Abel Ferreira comparece com o álbum ''Brasil, Sax e Clarineta'', gravado em 1976 no auge da forma, acompanhado por músicos renomados como Dino 7 Cordas, Raul de Barros e Orlando Silveira (este responsável pelos arranjos). O material apresenta autores fundamentais para o choro solado por sax ou clarineta.
''Radamés Gnatalli Sexteto'', registrado em 1975, marca um momento em que o choro experimentava uma redescobeta (como ocorre agora) por parte do público jovem. Neste trabalho o pianista e compositor comandou as sessões instrumentais tocando com Chiquinho do Acordeão, Zé Menezes (cordas), Pedro Vidal Ramos (contrabaixo) e Luciano Perrone (baterista).
Considerado antológico pela crítica especializada, o repertório reforça o prestígio de Gnatalli (um dos nomes mais importantes da era do rádio) como modernizador do choro ao apresentar arranjos estonteantes que aproximam o gênero da música erudita e do jazz.
Outro destaque é o álbum ''Choros Imortais Nº 2'', gravado por Altamiro Carrilho em 1965, no qual este virtuose da flauta combina agilidade, precisão e desenvoltura com técnica monstruosa. Raul de Barros desponta na Coleção com o álbum ''Brasil, Trombone'', gravado em 1974 ainda pelo selo Marcus Pereira, que mais tarde seria incorporado pela EMI.
O disco abre com ''Na Glória'', composição que se transformou em uma das mais executadas entre os standards do choro inaugurando a fronteira da gafieira com o gênero. Raul improvisa em companhia de músicos respeitáveis como Dino e Meira nos violões, Canhoto no cavaquinho, Wilson das Neves na bateria e um naipe de percussão formado por Marçal, Luna, Elizeu e Doutor.
Uma participação muito especial é a de Guinga no acompanhamento de violão da música ''Violão Vadio'', já apontando na tenra idade a trama harmônica que o consagraria posteriormente. A produção ficou a cargo de J.C.Botezelli, o Pelão, artífice de alguns dos mais importantes discos da memória fonográfica brasileira.
A Coleção traz ainda álbuns dos solistas Canhoto da Paraíba (''O Violão Brasileiro Tocado pelo Avesso'', 1977) e Deo Rian (''Choro de Sempre'', 1974), que são completados por trabalhos dos grupos Os Chorões (''Chorinhos da Pesada'', 1971) e Época de Ouro (''Dino 50 Anos'', 1987), cujas formações incluem instrumentistas notáveis, alguns dos quais destacados como solistas nesta série de 10 CDs.
Nas duas únicas coletâneas montadas exclusivamente para o projeto, não faltam motivos para os apreciadores comemorarem. É que tanto ''Garoto, o Gênio das Cordas'' (com gravações realizadas entre 1949 e 1955) quanto ''O Jovem Pixinguinha'' (gravações de 1919 e 1920) trazem registros de sessões nunca antes editadas em disco.
No caso deste último, a compilação abrange as inovações trazidas nos choros ''Carinhoso'' e ''Lamentos'', de 1928, responsáveis pela modernização do gênero e pelo nascimento de uma linguagem orquestral brasileira.
Serviço:
- Coleção EMI Choro Grandes Solistas. Títulos: ''Abel Ferreira Brasil, Sax e Clarineta'', ''Altamiro Carrilho Choros Imortais nº 2'', ''Os Chorões Chorinhos da Pesada'', ''Deo Rian Choros de Sempre'', ''Conjunto Época de Ouro Dino 50 Anos'', ''Garoto o Gênio das Cordas'', ''O Jovem Pixinguinha'', ''Radamés Gnatalli Sexteto'', ''Raul de Barros Brasil, Trombomne'' e ''Canhoto da Paraíba O Violão Brasileiro Tocado pelo Avesso''. Lançamento: gravadora EMI.


