MÚSICA - Bossa em japonês
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 29 de novembro de 2006
Carlos Calado*<br> Folhapress 
Basta entrar em uma loja de discos de Tóquio para notar o enorme interesse que os japoneses têm pela música brasileira, em especial pela bossa nova. Na megastore HMV, uma das maiores do mundo, a seção de CDs de artistas brasileiros é dividida de forma reveladora, em duas grandes estantes de igual tamanho: MPB e bossa nova.
Mesmo quando não usam uma divisão tão inusitada, outras lojas também destacam a bossa nova em suas estantes. Na Tower Records, o novo álbum do veterano cantor e flautista carioca Bebeto Castilho (ex-Tamba Trio) é exposto com um estardalhaço que dificilmente se verá no Brasil.
Tocada com frequência em rádios, clubes noturnos, restaurantes ou lojas de qualquer ramo, o estilo soa para grande parte dos japoneses como um gênero musical autônomo, sem origem definida. Já se acostumaram a ouvi-la não só em português, inglês ou francês, mas também em sua língua.
''Muitos japoneses começaram a ouvir bossa nova por causa de Lisa Ono, que fez muito sucesso nos anos 90'', observa Katsuaki Hanada, repórter da revista musical ''Latina'', referindo-se à cantora brasileira descendente de japoneses que se tornou uma espécie de embaixadora da bossa no país.
Mas foi outra a pioneira na introdução desse estilo musical entre o público japonês. A paulista Sonia Rosa tinha só um disco gravado e não completara os 18 anos quando desembarcou em Tóquio, em 1969. Convidada a se apresentar por seis meses no país, não voltou mais. ''Me pegaram no aeroporto e já fomos para um clube de jazz, onde fiz uma temporada com o Sadao Watanabe'', lembra a cantora. O aval do jazzista japonês, que na época já apreciava os ritmos brasileiros, foi essencial para deflagrar a carreira de Sonia Rosa no Japão. Meses depois, os dois lançaram um disco de grande repercussão.
A facilidade de Sonia com o idioma local também ajudou. ''Virei a rainha das trilhas de novelas no horário nobre da TV. Eu cantava bossa nova em japonês'', diverte-se a intérprete, reconhecendo que a tática de incluir faixas em japonês nos discos ajudou na comunicação com o público.
''Sonia Rosa foi a primeira artista a fazer sucesso com esse gênero no Japão'', credita o produtor Edison Mineki, que a entrevistou há pouco em seu programa ''Ginga Brasil'', veiculado em diversas rádios japonesas. ''O novo disco dela vinha sendo aguardado pelo público mais veterano e tem obtido grande destaque nas principais FMs e lojas do país''.
O CD ''Depois do Nosso Tempo'' marca o retorno da cantora, ausente dos palcos há mais de uma década. Sonia o lançou oficialmente na semana passada, em uma temporada de shows no Blue Note, o principal clube de jazz de Tóquio, com participações de Oscar Castro-Neves, Wilson Simoninha, Jair Oliveira e Romero Lubambo. ''Acho que esse é um bom cartão de visitas'', brinca a cantora, admitindo que, após 37 anos, gostaria de fazer seu primeiro show no Brasil. ''Só voltei duas vezes ao país, como turista. Não gosto de avião'', diz.
A volta da cantora ao mercado musical também foi marcada, no Japão, pela reedição de seu primeiro álbum, ''A Bossa Rosa de Sonia'' (1968). ''João Gilberto foi o meu professor. Eu comprava os discos dele e tocava tudo de ouvido'', lembra a autodidata, que segue o estilo do mestre da bossa nova.


