Luiz Melodia acalentou a idéia durante mais de um ano. Um CD só com sambas dos anos 30, 40 e 50 para homenagear uma geração de ouro. Bambas como Cartola, Ismael Silva, Geraldo Pereira, Wilson Batista. ''Estação Melodia'', que a gravadora Biscoito Fino manda para as lojas neste fim de semana, traz mais do que belos sambas.
O CD comprova que Luiz Melodia, autor de sucessos como ''Pérola Negra'', é também um grande intérprete. ''Eu queria cantar o melhor possível. Eu faço isso bem'', diz, cheio de confiança aos 35 anos de carreira e 56 de idade.
Melodia, criado no Morro de São Carlos, favela do Estácio, no centro do Rio, privilegiou os sambistas do bairro, como Ismael Silva e Geraldo Pereira, e resgatou duas músicas do seu pai, o sambista Oswaldo Melodia. Estão lá ''Não me Quebro à Toa'' e ''Linda Tereza'', que fecha o disco. ''Meu pai tinha a voz muito bonita, mas nunca viveu da música. Foi estivador no Porto do Rio e depois virou funcionário público. Ele tinha o timbre parecido com o meu. Só que cantava mais bonito.''
O CD não deixa de ser uma volta no tempo. Melodia gravou os sambas com a simplicidade da época em que foram lançados e que ele ouvia sem parar nas rádios quando menino. ''Fui buscando as músicas nas minhas lembranças. Quis usar os andamentos daquele tempo com um toquezinho de modernidade. Queria a malemolência dos sambistas de antigamente. Esses sambas que a gente ouve hoje em dia parecem frevos. Tudo tem cara de axé music'', reclama.
O disco já começa com uma pérola: ''Tive Sim'', de Cartola. Há momentos especiais, como nas músicas de Geraldo Pereira, ''Chegou a Bonitona'' (em parceria com José Batista) e ''Cabritada mal-sucedida''. Nas duas faixas, o clima é de gafieira. Em ''Eu agora Sou Feliz'', de Jamelão, sambista da Mangueira, e ''Mestre Galo'', predomina o espírito dos bailes carnavalescos. A tal malemolência está em ''Contrastes'' (Ismael Silva) e em ''O Neguinho e a Senhorita'', de Noel Rosa de Oliveira, sambista do Salgueiro, e Abelardo Silva. ''Para gravar este CD eu ouvi muito o Noite Ilustrada (apelido do sambista Mário de Souza Marques Filho). Eu peguei dele a malandragem. O cara tinha um charme, uma simplicidade que eu queria passar neste CD.''
Este é o seu primeiro disco pela Biscoito Fino, gravadora que lançou o último CD de Chico Buarque e Maria Bethânia. Por enquanto está em lua-de-mel. Melodia nem sempre se entendeu com as gravadoras. ''Elas sempre tiveram uma relação muito pequena com a minha música. Diziam que a minha música era maravilhosa e tal, mas era uma relação pequena diante da grandiosidade do que eu faço.'' Não importava se eram gravadoras grandes, como a EMI-Odeon, ou menores, como a Indie. ''Eu estou presente no cenário musical até hoje pela precaução que eu sempre tive. Quando não estava dando certo, eu mudava. Acho que todas elas são parecidas.'' Com a Biscoito Fino, o contrato vale apenas para este ''Estação Melodia''.

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