Curitiba Esqueça tudo o que você sabe sobre cultura popular e folclore. Esses termos estão relegados ao limbo dos vocábulos pejorativos e para melhor compreensão devem ser substituídos por ''cultura do povo''. Uma cultura que não precisa ser resgatada, porque sempre existiu. Não precisa ser salva porque não morreu. Esses paradigmas são defendidos pelo grupo curitibano Mundaréu, que resgata ou melhor, que trabalha as manifestações artísticas que determinam a identidade do Brasil. O grupo apresenta espetáculos musicais calcados em ritmos e gêneros como bumba-meu-boi, baião, fandango e congada, para citar alguns, e mostra a verdadeira origem de temas que marcaram a música do povo brasileiro.
Um exemplo dessa linha de pesquisa são as músicas do compositor João do Vale, que ganharam novas versões assinadas pelo grupo. O espetáculo ''No pé do Lajêro'' foi apresentado no último domingo, no Guairão, com platéia farta. ''Foi uma surpresa pra gente'', diz o músico Itaércio Rocha, integrante do grupo. E uma prova de que o Mundaréu, formado em 1997, começa a ser reconhecido depois de um árduo trabalho. Com três discos gravados, todos pela Lei de Incentivo, o grupo já amplia sua atuação e aposta, além da apresentação de espetáculos, na realização de oficinas sobre diferentes manifestações. Três delas, que serão ministradas em março, em Curitiba, já estão com inscrições abertas.
Formado além de Itaércio Rocha por Daniella Gramani (voz, rabeca e percussão); Dayse Santiago (voz e percussão); Melina Mulazani (voz, flauta transversal e percussão) e Thaiana Barbosa (voz e percussão), o grupo acumula um repertório que mescla música, dança, bonecos e uma infinidade de acessórios produzidas por eles numa rotina semanal de ensaios. No ''Pé do Lajêro'', por exemplo, apresenta músicas de João do Vale, maranhense nascido em 1934. As músicas do compositor começaram a ser conhecidas depois de uma gravação de Zé Gonzaga e Cenário Pinto. E para quem acha que não conhece o compositor e só lembrar da clássica ''Carcará'', uma parceria com José Cândido que lançou Maria Bethânia no mundo da música. Vale morreu em 1996, pobre e pouco reconhecido.
''Esse universo dos pobres é a essência da cultura do povo. É uma cultura das minorias, dos negros e dos índios'', defende Itaércio. Ele lamenta a desigualdade na distribuição de verbas para esse tipo de cultura e a chamada ''cultura burguesa''. ''Quase não existem verbas oficiais destinadas a cultura do povo. Veja se o fandango no litoral ou a congada da lapa tem verba oficial do governo. Compare essa verba com o teatro, com a música nas grandes capitais'', argumenta o músico. Mas não foi essa desigualdade e muito menos por lamentar a falta de atenção a esse tema que o Mundaréu decidiu investir nessa linha. ''A beleza e a essência disso nos encantou. Mas não negamos nossa formação acadêmica. O conhecimento da cultura do povo vem se unir ao conhecimento acadêmico no nosso trabalho'', explica.
O primeiro trabalho do grupo, nascido para defender uma canção no Festival de Música da Universidade Federal do Paraná (UFPR), já tinha essa idéia. ''Cutuca rapaziada'' é um panorama do cancioneiro popular. Em seguida, o Mundaréu montou ''Guarnicê, uma singela opereta popular'' (2000) que traz a encenação do bumba-meu-boi, boi-bumbá, boi-de-mamão e também dá título ao primeiro CD do grupo, em que foram trabalhadas toadas de boi de todo o Brasil. Em 2001 apresentaram ''Bambaê'', show com músicas de tradição oral recolhidas durante as viagens do grupo.
O mamulengo inspirou o espetáculo intitulado ''As Aventuras de uma Viúva Alucinada''. Fruto de pesquisa de festas populares, nasce o ''Cacuriá do Tatá'', em 2001. No ano seguinte, o grupo estréia ''Embala Eu'', que trabalha a ponte entre a ''nova'' MPB e elementos da cultura popular. O espetáculo também foi gravado em disco. No ano passado, apresentaram o ''Bambaê da Bicharada'' em escolas, o show ''No Pé do Lajêro'', com composições do João do Vale, e gravaram o disco ''Canções Natalinas'', com músicas sobre o Natal cantadas em várias regiões do Brasil.
Além dos espetáculos, o grupo ministra periodicamente (e por encomenda) as oficinas de boi, corpo e cultura popular brasileira, cacuriá e oficina da folia. Em março, o grupo ministra as oficinas ''Cultura Popular na Educação'', ''Oficina de Cacuriá'' e ''Voz na Cultura Popular''. Todas as oficinas acontecerão as quartas-feiras das 19 às 22 horas. As inscrições podem ser feitas no Conservatório de MPB (Rua Mateus Leme, 66, esquina com a 13 de maio) e custam R$ 10,00 por curso.

Serviço:
- Informações sobre a venda dos discos podem solicicitadas pelo e-mail [email protected]. Informações sobre as oficinas pelos telefones (41) 3321-3208 e (41) 3324-8446

mockup