Cravo, flauta traverso, violoncelo barroco e tenor. A apresentação deste mês da Temporada Ouro Verde de Música Histórica leva aos ouvidos, e a todos os sentidos do homem do século XXI, a voz e a expressividade plena da arte musical dos séculos XVII e XVIII. Neste domingo, às 20 horas, no Teatro Ouro Verde, o grupo ''Gli Amanti dei Sospiri'' faz uma execução das cantatas francesas. A alegoria, presente em breves poemas que contam histórias mitológicas, é posta em música com a simplicidade e pureza de quem narra um conto de fadas. Longe da pompa que já começa a dominar o gênero operístico, a cantata francesa é um evento privado, quase íntimo, no qual muitas vezes um único cantor narra uma lenda emprestando esporadicamente sua voz aos personagens, acompanhado por um pequeno grupo de músicos que com ele dialogam.
O grupo, formado em 2003, é composto pelos músicos Alberto Pacheco (tenor), Marcello Stasi (flauta traverso), Teresa Cristina Rodrigues Silva (violoncelo barroco) e Rose Ana Carvalho (cravo). A formação se deu dentro de um grupo de pesquisa de práticas interpretativas do século XVIII, dentro do curso de pós-graduação da Unicamp, onde três de quatro integrantes concluem seu doutorado. Desde a feitura dos instrumentos até a expressão corporal, passando pelo uso de edições fac-símiles, o objetivo é chegar a uma forma que resulte do estudo de fontes históricas.
Combinando a busca pelo entendimento do modo de sentir e se expressar do homem barroco com o resultado das pesquisas históricas das técnicas aplicadas à voz e aos instrumentos trazem uma experiência sensorial da pura expressão dos afetos que unem o homem de hoje àquele de trezentos atrás.
No programa, ''Orfeu'', de Louis Nicolas Clèrambault (1676-1749), 'Arion'', de André Campra (1660-1744) e ''Sonata para flauta'', de Michel Blavet (1700-1768). As cantatas narram a história de dois personagens músicos que teriam vivido na Grécia por volta do século VII A.C., e que, graças ao poder de encantamento mágico de sua música, foram capazes de feitos extraordinários.
Após o sucesso de uma turnê pelo sul da Itália, Arion embarca de retorno à Grécia. Os marinheiros que o transportam, no entanto, decidem roubar a fortuna que o músico obtivera em suas apresentações. Ao jovem músico é dada apenas a opção entre atirar-se ao mar ou ser executado pela tripulação. Antes de se jogar, ele pede, porém, que lhe seja concedido executar uma última canção. Ao final da canção, Arion pula da embarcação e é salvo por um golfinho, que, atraído por sua música, vem resgatá-lo, levando-o com segurança, mas sem a fortuna que conquistara, ao porto de Corinto.
Na cantata ''Orfeu'', o poder da música é usado não para salvar a pele do próprio músico, mas sim o objeto de seu amor. Inconsolado com a morte de sua Eurídice, Orfeu, armado apenas com sua voz e sua lira, decide resgatá-la dos domínios de Plutão. Com a força sedutora da sua música, convence o deus das profundezas a liberar sua amada, relembrando-lhe de como um dia ele também fora dominado pelo amor.
A sonata do compositor e flautista Blavet causou furor nos admiradores da boa música que frequentavam os chamados ''Concerts Spirituels', chegando o som de sua flauta a ser comparado com a voz do próprio Orfeu.
Serviço:
- Cantatas francesas com o Grupo Gli Amanti dei Sospiri. Domingo, às 20 horas. No Teatro Ouro Verde (Rua Maranhão, 85). Ingressos no local a R$ 10,00 (inteira) e R$ 5,00 (meia-entrada).

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