ReproduçãoO artista plástico Nelson Leirner, cujo material foi apreendido no Rio, utiliza fotos de Anne Geddes (ao lado) como base de seu trabalho: na sua obra, ele denuncia o uso mercantil da imagem da criança embutido, segundo ele, nas fotos da neozelandesaHoje será realizado, nos principais museus e espaços de exposições de artes visuais no País, um dia nacional de protesto contra a censura. A iniciativa, assumida em reunião da classe artística realizada na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Rio de Janeiro, visa prestar solidariedade ao artista Nelson Leirner, que teve 36 trabalhos apreendidos pelo Juizado de Menores. Será colocada uma tarja negra na fachada dos prédios ou em obras em exposição, além de um cartaz com as palavras: ‘‘Pela liberdade de expressão: solidariedade a Nelson Leirner’’.
Hoje, a Funarte também inicia o ciclo de debates ‘‘Liberdade de Expressão e Cultura’’, sob coordenação do crítico de arte e diretor da Funarte no Rio, Fernando Cochiaralle. Os debates serão iniciados às 17h30, na sede da entidade (Rua da Imprensa, 16).
As obras de Leirner, que estavam em exposição no 16º Salão Nacional da Funarte, no Museu de Arte Moderna (MAM-RJ), foram apreendidas dia 10 de fevereiro, pelo juiz da 1ª Vara da Infância e da Adolescência, Siro Darlan. A alegação é de que teriam infringido o artigo 241 do Estatuto da Criança e do Adolescente, que proibe ‘‘fotografar ou publicar cenas de sexo explícito envolvendo criança ou adolescente’’.
Para Silvio Ricart, advogado de Nelson Leirner, a apreensão das obras significa ‘‘agressão ao direito de livre expressão garantida pelo artigo 5º, inciso 9º, da Constituição Federal de 1988’’. Ele frisa que Leirner ‘‘não fotografou crianças nem difundiu cenas que atentam contra o pudor, ele se apropriou e grafitou fotos realizadas pela fotógrafa neozelandesa Anne Geddes’’. O artista, por sua vez, declara que realizou os trabalhos ‘‘para denunciar a pedofilia e o uso mercantil da imagem da criança, que estão embutidos na obra dessa fotógrafa’’.
Para o diretor da Funarte, Fernando Cochiaralle, a apreensão das obras de Leirner ‘‘é grave precedente que se cria no momento em que a sociedade brasileira, após décadas de ditadura, entra em autogestão’’. O crítico Agnaldo Farias, que convidou Leirner para a mostra censurada, declarou que ‘‘essa truculência do Juizado de Menores não se justifica, porque o artista estava denunciando a sexualização da criança, algo que o Juizado finge não ver ocorrer todos os dias em programas infantis de TV’’.
O diretor da Funarte encaminhou, no dia 16 de fevereiro, uma petição solicitando a devolução das obras, mas até o momento, diz Cochiaralle, não teve resposta.
O ciclo da Funarte contra a censura se abre com palestras do filósofo Gerd Bornheim (A Arte na Alemanha Nazista e na Rússia Stalinista), da crítica Maria da Gloria Ferreira (Caso Brancusi) e do curador do Museu de Arte Moderna de São Paulo, Tadeu Chiarelli (Caso Mapplethorpe).
Amanhã, falarão Agnaldo Farias (Arte e Censura), o crítico Frederico Morais (Arte e Censura Durante o Regime Militar) e o advogado Silvio Ricart (Direito e Censura).
Entre os museus que participam do dia nacional de protesto estão o Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP), MAM de Recife, MAM da Bahia, Paço Imperial (Rio), Museu de Arte Contemporânea de Niterói, Paço das Artes e Museu Lasar Segall (ambos de São Paulo) e o Museu de Arte Contemporânea do Paraná, em Curitiba.

mockup