Museus de São Paulo trocam de comando em meio à crise e buscam se reinventar


CLARA BALBI
CLARA BALBI

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Nomeados em plena pandemia, os novos dirigentes de três museus paulistanos, o MAM (Museu de Arte Moderna de São Paulo), o MAC-USP (Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo), e o MuBE (Museu Brasileiro de Escultura e Ecologia), encaram uma situação inédita.

Com os sucessivos adiamentos de mostras e de eventos dos últimos meses, alguns deles só passam a assinar suas programações de fato no ano que vem.



Mais importante, o contexto do novo coronavírus implica numa série de desafios para esses curadores, entre quadros de funcionários esvaziados, expectativas de diminuição de verbas e de receitas, e o relacionamento com um público com receio de frequentar espaços fechados.

As estratégias dos três -Cauê Alves, Ana Gonçalves Magalhães e Galciani Neves, nesta ordem-- para lidar com isso parecem ir por um mesmo caminho. Fortalecer setores educativos, expandir a presença virtual e buscar parcerias para refrear a crise são planos citados por todos.

Já sobre os calendários herdados, eles respondem que isso não os impediu de arregaçar as mangas desde agora. "Não vou ficar esperando até o fim de 2021 para fazer alguma coisa", diz, bem-humorado, Cauê Alves, que assumiu a curadoria do MAM depois de quatro anos à frente do MuBE, que ele ajudou a inserir no circuito de artes plásticas da cidade.

Alves é um nome central nesta dança das cadeiras. Sua chegada ao MAM, fruto de um processo de seleção que demorou quase seis meses, coroa uma série de mudanças iniciadas ali no ano passado, quando Milú Villela, presidente da instituição por 24 anos, passou o bastão para a advogada e colecionadora Mariana Guarini Berenguer.

Antes que ele fosse anunciado, no entanto, o MAM começou a sentir os efeitos da crise. A paralisação das atividades levou à demissão de 13 funcionários do museu, ou cerca de um quarto do total, "decisões difíceis, porém inevitáveis" segundo declara o museu em nota. Uma mostra de arte indígena contemporânea que integraria a programação paralela da Bienal de São Paulo foi cancelada.

Alves afirma que é inegável que o MAM foi afetado, assim como outras instituições culturais. Mas, pondera, trata-se de uma instituição sólida, sem dívidas ou grandes problemas estruturais. Além disso, acrescenta, com o adiamento da própria Bienal para setembro do ano que vem, é provável que a parceria entre eles seja retomada.

Parcerias, aliás, são centrais nos planos de Alves para o MAM. Uma de suas propostas mais ambiciosas é intensificar a conexão dele com o entorno -o que inclui de expandir as ações do MAM no parque a elaborar iniciativas conjuntas com os demais museus dali. "Claro que estou me adiantando, mas seria incrível se um artista pudesse fazer uma intervenção no céu do Planetário", ele exemplifica.

Outros planos do curador envolvem se voltar para o acervo, sempre a partir de um olhar crítico em relação à arte moderna que, a despeito do nome do museu, representa uma parcela menor da sua coleção.

E integrar as ações do educativo às da curadoria, desde a pesquisa. "Me incomoda muito a ideia de que o educador é mero reprodutor do discurso da curadoria. Não dá para um museu ter braços andando sozinhos, sem um corpo", justifica.

Ligado ao Ibirapuera por uma passarela, o MAC-USP, agora sob a direção da historiadora da arte Ana Gonçalves Magalhães, é outro que enfatiza a importância dos educadores no museu. O museu universitário abriga cerca 10 mil obras, e tem entre seus autores nomes como Picasso, Modigliani e Kandinsky.

"Estou vendo muitas instituições os demitindo, dentro e fora do país, e na nossa percepção isso é um tiro no pé. É o caminho da mediação que precisamos entender [no pós-pandemia]", ela diz.

Eleita numa chapa com a arquiteta e urbanista Marta Bogéa, sua vice, Magalhães afirma que o MAC não registrou demissões neste período. No entanto, dois concursos para professores há muito aguardados foram adiados para o fim do ano que vem por causa da pandemia --não há novas contratações desde que o museu migrou da cidade universitária para o prédio atual, dez vezes maior, há sete anos.

Magalhães cita o número reduzido de pesquisadores como uma das adversidades que o museu tentará contornar com parcerias nos próximos tempos, assim como uma série de adaptações na infra-estrutura do antigo prédio do Detran, algumas delas em razão da pandemia, outras em curso desde a mudança.

Outra preocupação central da diretora é com a diversidade. Especificamente, como acolher o público heterogêneo que passou a frequentar o museu nos últimos anos -e que contribuiu para quase triplicar a quantidade anual de visitantes de 2013 para 2019- com a limitação da sua capacidade por causa das medidas de segurança e higiene do pós-pandemia.

Por ora, a solução do MAC é investir no meio virtual, conta Magalhães, até então pouco explorado. De lá para cá, o museu intensificou a atuação nas redes sociais, promoveu lives e inclusive abriu sua primeira exposição virtual, "Vídeo_MAC", com obras de artistas que atuaram num projeto pioneiro de videoarte do museu no final dos anos 1970.

Diversidade também é uma palavra de ordem para Galciani Neves, que assumiu a curadoria do MuBE, localizado numa construção assinada por Paulo Mendes da Rocha nos Jardins. Ainda desenhando o planejamento para o ano que vem, mas tendo começado os trabalhos com uma série de bate-papos com artistas mulheres nas redes sociais, ela conta que entre seus principais objetivos está a diversificação e inclusão do público.

Fundamental também é lembrar à sociedade o papel que os museus podem ter num momento como o da pandemia, ela afirma. "Um museu como o MuBe, que tem ecologia no nome, precisa apresentar questões que localizem e incrementem o debate sobre nossos impactos no mundo."



Alves ecoar essa visão. "Entendo que, tirando a pandemia, a crise que vivemos no mundo, e especialmente no Brasil, é de sensibilidade. As pessoas não conseguem sentir o outro, e acho que a arte pode contribuir para mudar isso", ele diz, citando práticas terapêuticas como a da psiquiatra Nise da Silveira e da neoconcretista Lygia Clark. "Acredito na possibilidade de a experiência sensorial de transformar as pessoas, tocá-las."

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