Museu reconta a história do bairro paulistano do Cambuci
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quinta-feira, 27 de maio de 1999
Por Júlio Gama e Cláudia Fontoura 
São Paulo, 28 (AE) - Abre-se amanhã, às 11 horas, no Outeiro da Glória, no Cambuci, a exposição "Os Caminhos do Retorno: Relato da Vinda dos Imigrantes para o Cambuci". Os painéis com fotos ampliadas de até 2 m x 80 cm e transcrições de depoimentos de moradores da região são parte do Projeto Museu de Rua do Cambuci que, por sua vez, é o primeiro passo de outro projeto, a criação do Museu de Bairro.
O Museu de Bairro é uma iniciativa da Secretaria de Estado da Cultura de recontar a história das mais importantes regiões da cidade a partir da visão dos imigrantes e seus descendentes e não de historiadores. A exposição tem entrada franca e ficará montada no Largo do Cambuci durante 60 dias.
O que se verá a partir de amanhã no Cambuci são 12 painéis de dupla face com 150 fotografias do fim do século passado até os anos 50, outras tantas reproduções de documentos e mais 70 depoimentos de moradores, imigrantes e seus descendentes. Outros textos curtos feitos por historiadores situam na cidade e no País os fatos ocorridos no Cambuci.
"Se há uma novidade nessa mostra é o fato de se contar a história de um bairro não pelos monumentos históricos, mas pelas pessoas, pelo lado social", explica um dos coordenadores dessa primeira fase do projeto, o museólogo e arquiteto Júlio Abe Wakahara. "Essa exposição se apresenta como um espaço de reflexão da condição humana dentro de um período histórico", diz.
Para Wakahara, a necessidade que o público sentia desse espaço para reflexão pôde ser sentida na receptividade que os organizadores tiveram para reunir o material. "Juntamos cerca de 500 fotografias", informa.
O trabalho de garimpagem do material foi coordenado pela historiadora Ana Ligabue. Com a ajuda de estudantes da região, Ana passou seis meses colhendo o material iconográfico e tomando os depoimentos dos moradores mais antigos do bairro. "Foi um trabalho maravilhoso, semelhante a montar um grande quebra-cabeça", compara.
A Secretaria de Estado da Cultura, que assina vários projetos de recuperação da história da cidade, sendo o mais importante o Museu do Imigrante, não precisou fazer grandes investimentos no Museu de Bairro. "Gastamos R$ 20 mil, mas é apenas o primeiro passo para chamar a atenção das comunidades de outros bairros", afirma o secretário de Estado da Cultura, Marcos Mendonça, que pretende levar o Museu de Bairro para outras regiões. Os próximos a ter seus museus são Pinheiros e Vila Pompéia.
Para Mendonça, a participação dos moradores dos bairros é fundamental. "Disponibilizamos técnicos e museólogos para acompanhar o projeto", explica. "Mas se os moradores não se interessarem em procurar objetos, documentos e fotografias em seus baús, a idéia não vai pra frente."
Para Mendonça, São Paulo é uma cidade sem história. "Tivemos um processo de crescimento muito rápido e desordenado que destruiu nossas referências", acredita. "Com esse projeto, teremos a oportunidade de recuperar um pouco da memória e estabelecer vínculos com a comunidade."
Isidoro Capecci, de 81 anos, gosta de dizer que mora no Cambuci há bem pouco tempo. "Só há 81 anos", diverte-se. Aposentado desde 1975, Capecci viveu no bairro a Revolução de 1924. "Eu tinha 6 anos e lembro quando minha irmã me disse: Estourou a revolução."
Nesse dia, os dois saíram de casa e encontraram o pai, imigrante italiano de Nápoles. "Ele nos levou ao empório e comprou sacos de farinha e milho", lembra. Durante a revolução, sua família comeu muito macarrão feito com aquela farinha e com os ovos do galinheiro do fundo do quintal. O milho não era para comer. "Meu pai os colocava numa bacia no quintal para atrair os pombos que um açougueiro da vizinhança criava", conta. "Comemos muitos pombos naquela época."
Capecci também viveu o dia em que estudantes invadiram a Bastilha do Cambuci, como era chamado um presídio destinado a presos políticos. "Meu tio, que era comunista, participou da libertação dos presos." Capecci esperou do lado de fora e só entrou quando não havia mais perigo. "Eu tinha 12 anos, mas lembro de uma sala grande com as paredes pintadas de preto onde diziam que as pessoas sofriam torturas."


