Museu que saiu do lixo
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sexta-feira, 19 de fevereiro de 1999
Elisa Marilia Carneiro 
Logo na entrada depara-se com uma montanha de computadores, do outro lado cadeiras-de-rodas, butijões de gás, peças, motores, e assim vai-se entrando num museu muito particular. As peças não têm qualquer registro. Não se sabe a quem pertenceram, o porquê de estarem ali, nada. Esse mistério fascina ainda mais os visitantes do Museu do Lixo Que Não é Lixo.
Um carimbador de tiquetes da locomotiva Maria Fumaça, de 1860; enciclopédias completas Barsa, Mirador e Britânia, cadeados antigos, rádios, máquinas de costura, computadores CP-500, livros do século passado, cédulas, moedas e armas - todos objetos com significados históricos -, compõem o acervo do Museu do Lixo Que Não é Lixo. Algumas peças em prata, cobre, latão e muitos quadros, fotografias e até cobras em formol.
Montado na Usina de Separação, em Campo Magro, o museu reúne cerca de mil objetos, muitos deles raros. O material é encontrado entre os resíduos recolhidos pela coleta seletiva, que desde 1990 seleciona o material. Algumas peças foram doadas, mas a grande maioria foi encontrada na esteira de separação. Esse trabalho começou por iniciativa dos funcionários e até hoje fica por conta do que acham diferente ou interessante, conta a educadora-ambiental Elisangela Marchiorato.
De acordo com o administrador da usina Marcelo Gomes Ferreira, o principal objetivo do museu é a educação ambiental. Aqui, as pessoas entendem que esse material poderia ter sido doado a uma biblioteca ou museu, ao invés de ser jogado no lixo ou levado para o Aterro Sanitário, diz.
As peças que fazem parte do museu começaram a ser reunidas num baú há cerca de sete anos pelo funcionário mais antigo da usina Antônio Afonso Cardoso, o seo Panamá, de 72 anos. Sempre gostei de separar e guardar objetos que acho bonitos, conta.
Como o número de peças começou a aumentar, em 1997 a administração da usina destinou um espaço próprio para elas. O museu fica num barracão, ao lado do trabalho de separação. Para chegar ao local é preciso passar por carregadeiras, caminhões, muito papel, vidro e alumínio.
Segundo Panamá, um dos primeiros objetos separados para o acervo do museu foi uma canga baiana, um penduricalho com bolas de cobre que era oferecido aos escravos que realizavam atos de bravura.
Aberto ao público das 9h às 12 horas e das 13h às 17 horas, o museu é visitado diariamente no período letivo por alunos das escolas de Curitiba. Somente no ano passado, recebeu mais de oito mil pessoas. O local também é atração para turistas de outros estados e estrangeiros que passam pela cidade.
Além de contribuirem para a formação do museu, muitos artigos encontrados na esteira de separação são utilizados na adminsitração da usina. É o caso de rádios usados na comunicação interna e computadores, que depois de passarem por reparos são vendidos a R$ 10,00 aos funcionários. Todos os objetos que ainda têm utilidade ficam expostos para serem vandidos, como cadeiras-de-rodas, motores, fogões, peças em geral, secadores de cabelo e butijões de gás. Os livros didáticos são doados às crianças da vizinhança, que também podem usar os livroe e as enciclopédias para consultas, afirma Elisângela.


