Adormeço sonhando com o Huangpu e acordo cedo para ver o museu de Xangai, que não pode ser visitado em menos de quatro horas e bem merece um dia inteiro. Foi construído em 1994 e subverteu a concepção museográfica tradicional. Tão impressionante fora – pela forma que evoca um antigo navio chinês – quanto dentro – pelas coleções.
Não sei se prefiro a galeria dos bronzes, das esculturas ou de jade – valorizado na China antiga pela riqueza e pelo poder que podia propiciar. As três galerias merecem mais de uma visita, como a outra em que me detenho longamente, a da pintura e da caligrafia, duas artes que não podem ser dissociadas. Tanto porque a escrita chinesa antiga representava os objetos por desenhos quanto porque, em decorrência disso, ela não conta somente pela significação, mas também pelo aspecto estético.
Saio do museu no fim da tarde e vou direto para o Hayat, um hotel do Pudong cuja recepção fica no 54.º andar e cujo cimo, mais alto do que a Torre Eiffel, está boa parte do tempo escondido na bruma e oferece uma vista tão fantástica quanto o Peace.
Aí eu fico até a cidade inteira se acender e as luzes cintilarem como pirilampos no espaço mítico do Bund, onde as fortunas do ópio se fizeram. Posso, nesse momento não me lembrar do que diz Baudelaire sobre a arquitetura do ópio, ‘‘que constrói, com os materiais imaginários do cérebro, cidades e templos que ultrapassam a Babilônia em esplendor’’?

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