O Museu de Arte de Londrina, que funciona na antiga rodoviária, poderá ser ampliado para poder receber exposições e outros eventos culturais. O projeto de ampliação, que certamente vai gerar polêmica, deverá começar a ser discutido nos próximos dias, em reunião que está sendo agendada entre representantes da Sociedade Amigos do Museu (Samalon), da Secretaria de Cultura do município, do Patrimônio Cultural do Estado e da Fundação Villanova Artigas, que faz a curadoria dos projetos criados pelo arquiteto.
Na opinião da marchande londrinense Ana Maria Barreto, integrante da Samalon, aumentar a área útil do museu é essencial para seu bom funcionamento. ‘‘Existe a necessidade de um espaço destinado à reserva técnica, que é onde fica o acervo de um museu. Atualmente não há como promover uma exposição, por exemplo, porque não existe um espaço para guardar as obras do acervo’’, afirma.
Ana Barreto lembra que, com a ampliação, o Museu de Arte de Londrina poderia ser usado inclusive para eventos que revertessem em renda para sua manutenção, como acontece na maioria dos museus de todo o mundo. ‘‘Um museu deve ser algo dinâmico, que funcione. Existem vários projetos para uso daquele espaço, como criação de uma oficina de arte para crianças e uma livraria especializada em arte. Mas não existem recursos, tudo tem sido feito em etapas.’’
A proposta de ampliação defendida pela marchande prevê a cobertura com vidro de alguns dos arcos que compõem o projeto arquitetônico idealizado por Artigas. ‘‘Como não haveria mudança na estrutura física, o projeto original não ficaria comprometido’’, acredita.
O arquiteto e professor da Universidade Estadual de Londrina, Jorge Marão, discorda. Ele acha que fechar os arcos com vidro romperia totalmente com as características do prédio. ‘‘Trata-se uma obra preciosa, conhecidíssima dentro e fora do País, presente em praticamente todos os livros de arquitetura moderna. É preciso muita parcimônia para cuidar deste tipo de espaço.’’
Marão, que elaborou junto com Antonio Carlos Zani o projeto de restauração da antiga rodoviária, lembra que além do aspecto histórico da obra, existem dificuldades técnicas. Entre elas a impossibilidade de colocação de uma placa de vidro única para fazer a cobertura (haveria a necessidade de instalar esquadrias para sustentação) e a necessidade de aparelhos de ar-condicionado - o vidro causaria calor excessivo dentro do museu - que compromoteriam muito o aspecto visual do prédio.
‘‘Desde o começo sabíamos que havia uma limitação de área ali, tanto que eu e o Zani fomos contra a transformação da rodoviária em museu. Nós sempre defendemos a utilização do espaço para um centro de exposições. O prédio não tem as características necessárias a um museu’’, diz Marão. Para o arquiteto, não se pode querer ganhar espaço simplesmente comprometendo parte da história ali presente.
Maria Luiza Marques Dias, coordenadora do Patrimônio Cultural do Estado do Paraná, ressalta que por se tratar de um prédio tombado, qualquer alteração só deve ser feita depois de muita discussão e diante da certeza de que o patrimônio será valorizado. ‘‘Nós acreditamos que o fechamento dos arcos seja um pouco complicado, até porque este recurso não permitiria a união de uma área com a outra, e o ganho de espaço não seria tão grande’’, observa.
Para ela, o local que abrigou durante anos a rodoviária de Londrina talvez seja, entre os prédios tombados, o exemplo de arquitetura contemporânea mais representativo no Estado. ‘‘Nós estamos planejando esta reunião para discutir o assunto e procurar encontrar uma alternativa que seja boa para o museu e para o Patrimônio’’, informa Maria Luiza.
O arquiteto Julio Camargo Artigas, filho de Villanova Artigas e membro instituidor da fundação que leva o nome do seu pai, acha que a questão deve ser discutida exaustivamente, inclusive pela sociedade, que deve ser a principal interessada de um bem tombado. Ele lembra que sempre que se tratar de um patrimônio da humanidade há uma série de critérios para preservação a ser seguidos.
Estes critérios constam na Carta de Veneza, um documento que nada mais é que um consenso mundial sobre os cuidados com os bens tombados. ‘‘A primeira condição é a não descaracterização do projeto original. Por isso qualquer interferência deve ser fruto de muita discussão’’, afirma o arquiteto. Segundo ele, o fato do projeto ter sido criado para ser uma rodoviária não pode ser esquecido, ou seja, o ‘‘jeitão’’ de rodoviária deve permanecer.
‘‘Os materiais podem até ser substituídos, mas o desenho original deve ser preservado’’, diz, lembrando, inconformado, que o prédio já sofreu uma intervenção deformante há muito tempo: aqueles pilares (chamados por Julio de ‘‘muletas’’) colocados ao final das plataformas por onde entravam os ônibus, que na opinião dele são verdadeira agressão à elegância da estrutura.

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