São Paulo, 19 (AE) - O hagi é um tipo de técnica de produção em cerâmica tradicional da região de Hiroshima, no Japão, e corresponde ao tipo de argila encontrada no solo daquele lugar. Assim, há alguns séculos, a técnica que permite aos objetos ficar com a aparência de porcelana, graças à pouca espessura da matéria-prima, era utilizada apenas naquele lugar do território japonês. O curador Masami Shiraishi, do Museu Nacional de Arte Moderna do Japão, selecionou 71 peças do acervo de cerâmica contemporânea do museu para a exposição organizada pela Fundação Japão no Museu da Casa Brasileira, que começa amanhã (20).
Os objetos foram divididos em 11 tipos de técnicas de produção, feitas por artistas crescidos nas regiões correspondentes - da mesma maneira que há séculos. Michiko Okano, organizadora da mostra paulistana, acredita que essa divisão secular por territórios está ligada ao fato de a mostra reunir apenas objetos criados por artistas e designers contemporâneos. "A globalização acabou por tornar as características regionais mais evidentes na produção artística"
observa ela. Assim, o hagi do sul japonês, por exemplo, está representado por duas peças de Miwa Kazuhiko, The Luminous Circle e Dreams in White (catalogados em inglês mesmo).
A maior diversidade dos objetos é a técnica. Enquanto o kutani, representado pelas peças esmaltadas em azul de Miyanishi Atsushi, confere às peças uma textura que lembra o vidro ou acrílico, o bizen apresenta uma textura mais próxima à do barro, como pode ser constatado nas peças criadas por Fujiwara Kazu para o cerimonial do chá. O bizen, também utilizado nos trabalhos de Yamato Tsutomu, é um dos métodos mais tradicionais e mais marcantes da exposição. De aparência tosca e tons de ferro, terra e cobre, adquiridos no processo de queima, as peças (em geral vasos) feitas com essa técnica remontam a uma das práticas ancestrais da cerâmica japonesa.
De acordo com dados da fundação, a peça mais antiga em bizen que se conhece é do século 8.º. Na época, a produção era voltada para os utensílios necessários para a realização da cerimônia do chá. "Até hoje a criação em cerâmica japonesa está muito ligada à sua utilização", acrescenta Michiko. De fato, quando os objetos da mostra não são vasos, bowls ou pratos facilmente identificáveis, são abstrações desses objetos, como é o caso de White-Glazed Vessel, de Okumura Hiromi. "É uma peça muito interessante porque sugere a utilização como vaso, mas na verdade não tem esse fim", comenta a organizadora.
"Existem leituras contemporâneas da cerâmica que são brincadeiras com os conceitos de objeto, como se pode ver no trabalho de Atsushi, que lembra um prato, mas não pode ser utilizado como tal pelo seu tamanho desproporcional com qualquer mesa, cerca de 50 centímetros". A organizadora diz que a fundação escolheu o museu pelo fato de a arquitetura, típica brasileira, contrastar com as peças. A exposição vai ficar em cartaz no Museu da Casa Brasileira até o dia 6. Em seguida, a coleção segue para Curitiba, Porto Alegre, Brasília, Manaus e Rio. Serviço - "Cerâmica e Porcelana do Japão". De terça a domingo, das 13 às 18 horas. R$ 5,00. Museu da Casa Brasileira. Avenida Brigadeiro Faria Lima, 2.705. tel. 210-3727. Até 6/2. Abertura às 13 horas

mockup