Eduardo Bagnoli/DivulgaçãoPiscina natural com fósseis de animais gigantes, em São RafaelA maior concentração de pinturas rupestres do Brasil fica em Lajedo de Soledade, em Apodi (RN). Ao todo, são 53 painéis. Telas imensas pintadas nas paredes. No solo, centenas de gravuras. Se não fosse pela riqueza histórica, só a vista dos paredões já valeria. As rochas formaram-se há 90 milhões de anos, quando o mar cobria o sertão. Com o recuo do mar, as chuvas e ventos esculpiram os paredões de calcário. Criaram cavernas, fendas, ravinas e abrigos. Um museu a céu aberto. As pinturas são tantas que, de longe, parecem manchas. De perto, no entanto, os letreiros (termo usado pelos nativos para designar as inscrições) demonstram um interesse claro dos homens pré-históricos: fazer arte.
As cores variam dos tons vermelhos aos amarelos, uma tinta natural feita de óxido de ferro, retirado da pedra calcária. Suspeita-se que ele era misturado ao leite de uma planta ou mesmo sangue animal, o que dava cor mais forte e fixava a tinta à pedra. A cor preta era feita com ossos de animais queimados e macerados. O branco, com caulim, um mineral usado ainda hoje no branqueamento de papel. Para pintar utilizavam, além de pincéis, espinhos e as próprias mãos.
Os motivos são os mais diversos. Figuras humanas, animais e geométricas-abstratas. As pequenas mãos aparecem em quase todas pinturas, ora pintadas inteiras, ora contornadas com tinta borrifada, como spray. E, num avanço técnico, os decalques: as mãos eram enroladas em fibras vegetais, trabalhadas e ganhavam uma camada de tinta. Cada mão surgia, então, com contornos particulares. Como ainda existe em tribos primitivas da Polinésia, os arqueólogos suspeitam que o ato de marcar as pedras com mãos seria um rito de entrada na idade adulta.
No solo, o visitante caminha sobre gravuras. Centenas delas. Explicações dos desenhos são inúmeras. Mas o grande barato é tentar formular teorias. De interpretações de astros celestes a mapas hidrográficos. Os guias aguçam a imaginação: mostram o painel dos peixes com seis figuras tão detalhadas que até soltam bolhas de ar pela boca. Um dos mais belos painéis de Soledade é o que representa a agricultura: pés de milho, um sol e até a tradução do trabalho humano, com uma mão plantando. Pela característica geral das pinturas, a arte faz parte da ‘‘tradição agreste’’. Pela semelhança ao sítio de Sete Cidades acredita-se que se trata da mesma cultura e idade equivalente, de 3 a 5 mil anos.
Bodes e vacas Se os ‘‘quadros’’ pré-históricos fascinam, o que dizer de um monumento de 25 metros de comprimento e 3 metros de altura? Em Ingá, no interior da Paraíba, um imenso monolito de granito é coberto por gravuras de 5 mil anos. Como numa colagem cubista, os desenhos vão se formando pela sobreposição. Separados, são simplesmente pontos, círculos, estrelas e cruzes, representações estilizadas de calangos, animais, espigas de milho, plantas e figuras humanas. Juntos, formam um painel de beleza única, a itacoatiara de Ingá. Descoberta em 1598, a pedra só foi tombada pelo Patrimônio Histórico e Artístico Nacional em 1944. Cercada por uma frágil corda de segurança, a itacoatiara resiste. Aos vândalos que escrevem seus nomes por cima das gravuras. Aos bodes e vacas que pastam em volta. E até a uma certa arqueóloga que, na tentativa de fazer um molde da pedra, passou uma série de produtos químicos que quase apagaram seus desenhos.
Grande parte das descobertas arqueológicas são locais bonitos, abrigados e próximos a um rio transitório ou lagoa. Soledade e Ingá não fogem à regra. Lágea Formosa, em São Rafael (RN), também não.
Nestes tanques, formados por intemperismo químico, durante milhares de anos, os gigantescos animais da pré-história (conhecidos como a megafauna do pleistoceno) vinham beber água. O perfil arredondado dos tanques funcionava como armadilha para os animais. Eles acabavam caindo e morriam. Identificar as ossadas, só quem conhece. Você anda achando que são pedras. Na verdade, as ossadas inteiras já não estão mais ali. Foram colocadas em museus. Como as pedras, além de belas, acumulam água, têm atraído animais e homens ao longo da história. Os vestígios desta ocupação são abundantes: foram encontradas ossadas inteiras de preguiça gigante (megatério), tatu (gliptodonte), elefante (mastodonte), hipopótamo (toxodonte), camelo (macrauquênia), lhama (paleolhama) e até tigre dente-de-sabre.

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