A música popular brasileira é repleta de divas. Musas que estabeleceram seus tronos em diferentes estilos musicais e conquistaram fãs tão ardorosos e fiéis quanto os torcedores de times de futebol. Essa semana, 25 dos maiores nomes da canção tupiniquim ganham um tributo em forma de livro, o primeiro dedicado exclusivamente aos timbres femininos. O autor da publicação é o jornalista e crítico musical Mauro Ferreira, que está lançando "Cantadas – A sedução da voz feminina em 25 anos de jornalismo musical".
A obra marca duas décadas e meia de carreira do jornalista que atualmente avalia trabalhos musicais de variados gêneros em colunas assinadas por ele na revista "Rolling Stone", no jornal carioca "O Dia" e no blog "Notas Musicais". Mauro também já teve suas críticas publicadas no jornal "O Globo" e na revista "Isto É Gente". "Sempre tive o dom da escrita e como sou colecionador de discos acabei juntando as duas coisas. Já entrei na faculdade de jornalismo em 1984 com o objetivo de ser crítico de música, com ênfase na música brasileira", contou o crítico em entrevista à FOLHA por e-mail.
No livro, que será lançado na próxima quarta-feira, no Rio de Janeiro, Mauro aborda o trabalho de 25 cantoras no período de 1987 a 2012. A seleção traz um abrangente painel da diversidade do canto feminino brasileiro, indo de Elza Soares (revelação de 1959) até Tulipa Ruiz, passando por Alcione, Ana Carolina, Ângela RoRo, Beth Carvalho, Cássia Eller (1962 – 2001), Cida Moreira, Daniela Mercury, Elba Ramalho, Gal Costa, Maria Bethânia, Maria Gadú, Maria Rita, Marina Lima, Marisa Monte, Mart’nália, Nana Caymmi, Roberta Sá, Sandra de Sá, Teresa Cristina, Vanessa da Mata, Zélia Duncan e Zizi Possi.
Na avaliação do jornalista, o livro é um documento bem interessante da produção fonográfica feminina de um período recente da música brasileira ainda não documentado na bibliografia musical brasileira. "Poderia fazer um livro com 100 cantoras tranquilamente. Ficaram muitas de fora. Mas essas 25 cantoras presentes no livro representam, cada uma com seu estilo, a pluralidade do canto feminino nacional. Outro detalhe: tive ao longo desses 25 anos abordados no livro contato profissional com todas elas. Por isso, Elis e Clara Nunes não estão, por exemplo. Quando ingressei no jornalismo, em janeiro de 1987, elas já tinham morrido", argumenta.
Fã declarado das cantoras que retrata em seu livro, Mauro acredita que as divas brasileiras não ficam devendo nada às estrangeiras. "A única desvantagem é o fato de cantarem em português, idioma pouco falado no mundo. No mais, nossas cantoras são tão boas ou melhores do que as estrangeiras. Alcione, Gal, Bethânia e Nana Caymmi, para citar somente alguns exemplos, se encontram entre as maiores cantoras do mundo de todos os tempos na minha opinião", analisa.
Mauro revela que ouve, pelo menos, duas ou três vezes um disco antes de publicar sua opinião sobre o trabalho. "Ouço o disco inteiro, na ordem das faixas, de duas a três vezes, mas esse número pode subir para até seis ou sete vezes, se for um lançamento megaimportante como um disco de Gal Costa, por exemplo. Depois, vou em uma ou outra faixa que eu não tenha assimilado de imediato", diz.
Mesmo adotando esse critério, o crítico confessa já ter mudado de opinião após emitir seu parecer. "O disco 'Sim e Não', lançado pelo Nando Reis em 2006, não me pegou nas primeiras audições. Achei que não era tão inspirado quanto 'A letra A'. Depois, vi que era um disco de pegada mais popular, mas tão bom ou até melhor do que 'A letra A', com canções lindas. Mas, na prática, como a fila de CDs é sempre grande, não tenho tempo de voltar a ouvir discos já resenhados", enfatiza.
Na avaliação dele, alguns fatores são essenciais para conseguir uma crítica positiva. "Observo a inteligência para montar um repertório, fazer um disco que tenha um conceito, uma unidade. Um disco que dialogue com seu tempo e com seu público e que aponte novidades", destaca. Apesar de buscar a imparcialidade em suas críticas, o jornalista admite que, muitas vezes, o gosto pessoal acaba falando mais alto. "Não acredito que haja imparcialidade absoluta. Críticos são seres humanos com gostos pessoais, preconceitos, afinidades, como todo mundo. Mas acho que precisa haver honestidade, sempre. O que a crítica diz do disco deve ser o que o crítico realmente acha do disco. Não dá para ter dois pesos, duas medidas. O rigor deve ser o mesmo para todos os artistas", pontua.
"Cantadas – A sedução da voz feminina em 25 anos de jornalismo musical" tem prefácio do DJ Zé Pedro e foi produzido de forma independente. Com projeto gráfico de Rodrigo Amaral, esse é o segundo livro de Mauro Ferreira. Em 2003, em parceria com Cleodon Coelho, o jornalista lançou "Janete Clair – Nossa Senhora das 8, editado pela Mauad.

Serviço:
"Cantadas – A sedução da voz feminina em 25 anos de jornalismo musical"
Autor - Mauro Ferreira
Editora - Independente (organizada pela empresa OrganoGrama)
Preço médio – R$ 35

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