Madame la présidente. Liv Ullmann, mas era para ser Jodie Foster. Desde que deixou a função de delegado-geral do Festival de Cannes para assumir a direção do evento mais mediatizado do mundo, Gilles Jacob tinha essa idéia. Queria que o festival ingressasse no terceiro milênio sob a condução de uma mulher. Convidou Jodie Foster para presidir o júri deste ano. Jodie, atriz e diretora, duas vezes premiada com o Oscar (por ‘‘Acusados’’ e ‘‘O Silêncio dos Inocentes’’), aceitou o convite como uma obrigação.
Na carta de agradecimento a Jacob, lembrou que era uma menina quando desembarcou na Croisette pela primeira vez. Fazia a Íris de ‘‘Taxi Driver’’ e esse cult de Martin Scorsese ganhou a Palma de Ouro naquele ano. Mas Jodie terminou declinando do convite e, em outra carta, alegou motivos de ordem particular e profissional para desistir da presidência do júri de Cannes 2001. Em busca de outra mulher, Jacob decidiu-se por outra atriz e diretora. Liv Ullmann já deu o sim. Cannes inicia o terceiro milênio sob o reinado da musa de Ingmar Bergman.
Liv fez nove filmes com Bergman. Só um deles talvez não seja muito bom - o que não quer dizer que ‘‘O Ovo da Serpente’’, mesmo sendo um Bergman menor ou mais discutível, não seja melhor do que a maioria dos diretores não consegue alcançar numa vida inteira.
Alguns desses filmes são clássicos e muitos críticos até hoje não se conformam com o fato de ‘‘Gritos e Sussurros’’ e ‘‘Face a Face’’ terem passado fora de concurso em Cannes, impossibilitando Liv de ganhar o prêmio de melhor atriz. Ela voltou várias vezes à Croisette. Nos últimos anos, como diretora. E com filmes escritos por Bergman - em 1997, com ‘‘Confissões Íntimas’’, com ‘‘Trolösa’’ (Infiel) no ano passado, ambos baseados em histórias da vida do próprio diretor ou de sua família. Em 1995, quando o festival atribuiu a Palma das Palmas de Ouro a um autor nunca agraciado com o prêmio, foi Liv quem subiu ao palco para receber o troféu em nome do mestre sueco.
Bergman queria escrever ‘‘Infiel’’ para Liv Ullmann. Queria, mas não conseguia. O roteiro não tomava forma e ele, que sempre teve a fama de ser tão grande roteirista quanto diretor - um autor completo -, resolveu deixar o projeto de lado. Retomou-o depois que descobriu Lena Endre e ela se tornou sua atriz preferida no teatro.
Foram muitas montagens, desde o começo dos anos 90. A mais recente, uma versão de ‘‘Mary Stuart’’, de Schiller, com Lena e Pernilla August. Pensando em Lena, Bergman escreveu o roteiro de ‘‘Infiel’’ especialmente para ela. Entregou esse roteiro a Liv, sua quinta mulher, pedindo-lhe que exorcizasse para ele esse episódio de sua vida. Deu carta branca a Liv para que dirigisse, como quisesse, o seu material. Fez só uma exigência - o papel de Marianne tinha de ser interpretado por Lena Endre.
Lena poderia ter sido a melhor atriz no Festival de Cannes do ano passado. Talvez tenha sido, de honra e de direito, mas era o ano de ‘‘Dançando no Escuro’’, de Lars Von Trier, e o prêmio terminou entregue a Bjöork. A personalidade do presidente do júri, o diretor francês Luc Besson, com certeza influiu na decisão. Besson é fascinado por Hollywood, pela ‘‘MTV’’. Não é bergmaniano, não acredita nesse cinema feito de gritos e sussurros que desvendam as paixões e revelam a alma - a anima, independentemente de qualquer conotação religiosa. Liv é uma mulher e uma artista generosa.
Atores, quando passam à direção, podem ser grandes. Clint Eastwood é o melhor exemplo, mas o grande Clint não deixa de cultivar seu narcisismo, criando papéis que celebram o próprio mito. Liv é diretora de uma obra ainda pequena. Quatro filmes - e um grande progresso desde o primeiro, ‘‘Sofie’’. Ela não se coloca em cena. Oferece grandes papéis a grandes atrizes. Pernilla August é sublime em ‘‘Confissões Íntimas’’. Lena não é menos em ‘‘Infiel’’.
Quando esteve em São Paulo, em 1996, para lançar, no Espaço Unibanco, seu segundo longa - ‘‘Kristin, Amor e Perdição’’ -, Liv já havia deixado excelente impressão. Bela, suave, impressionava com a tranquilidade daqueles olhos azuis que fitavam o entrevistador como se ele fosse a pessoa mais importante do mundo. Ela salta de reflexões sobre filmes e diretores ou sobre filmes de um dos maiores entre todos os diretores, Bergman, para observações bem pessoais, bastante femininas. Em ‘‘Confissões Íntimas’’, Liv conta uma história baseada na família de Bergman e o faz com sensibilidade, lançando um olhar de mulher sobre o casamento, suas crises e as relações extraconjugais.
Confessional é o tema de novo de ‘‘Infiel’’, só que Bergman, agora, é mais confessional. Fala sobre ele mesmo. No roteiro que entregou a Liv, o personagem do narrador, um cineasta velho e amargurado, já levava seu nome, Bergman. Mas foi idéia de Liv ressaltar a importância desse personagem que, para ele, era secundário. É a história de um triângulo. Mistura ‘‘Cenas de um Casamento’’ com ‘‘Da Vida das Marionetes’’. Fala de amor e sexo para expor, com rara crueza, o mais bergmaniano dos temas - a vergonha, título de um dos primeiros filmes que ele fez com Liv, nos anos 60. Marianne é casada com um músico. Tem uma filha e um amante. O amante não a satisfaz, na cama, como o marido. E então por que ela precisa desse outro? Porque sexo não é tudo. Porque sexo, para Bergman, é fonte tanto de prazeres quanto de tormentos.
Há uma grande cena no filme. O marido irrompe no quarto em que a mulher e o amante estão, em Paris. Homem e mulher estão nus e o amante rompe num acesso de riso, com o ridículo da situação. O desnudamento físico, nessa cena, é expressão de um outro desnudamento mais doloroso - o emocional. Mais tarde, quando o casal já está se separando, o marido chantageia a mulher e a chama para um encontro, para discutir a custódia da filha. Força-a a ter sexo com ele. De volta à casa do amante, ele quer saber se houve algo entre os dois. Obcecado pelo ciúme, força-a a uma confissão - sim, houve sexo e foi bom, porque o marido é um grande amante. Dupla vergonha - da mulher e do amante.
Por mais qualidades que ‘‘Infiel’’ possa ter (e tem), o filme seria melhor se Liv, como diretora, ousasse mais ou não fosse tão reverente com Bergman. Para fazer um filme bergmaniano não basta ter um roteiro de Bergman, é preciso o próprio Bergman. Mas Liv é reverente. De certa forma, ainda ama esse homem.
Em São Paulo como em Cannes, disse a mesma coisa à Agência Estado. Bergman foi uma influência decisiva em sua vida. Era muito jovem quando o conheceu. Viver à sombra do grande homem não foi fácil, mas quando o casamento terminou permaneceu a amizade. E a confiança. Bergman lhe entrega seus roteiros, permitiu que ela filmasse as cenas de ‘‘Infiel’’ na sua casa, em seu escritório, na ilha de Firo. Ela filma esses roteiros no ritmo lento que é o contrário de Hollywood. Um ritmo que, afirma, ‘‘todos possuímos dentro de nós’’. Filma como uma missão. ‘‘Se eu não fizer esses filmes, onde os encontraremos, filmes que falem sobre você, eu, nós?’’
Para Liv, como para Bergman, o cinema não deve ser só entretenimento. Ou deve ser um entretenimento de outra ordem, pois esses filmes muito rápidos às vezes conseguem ser exageradamente aborrecidos. Liv, como eterna musa de Bergman, quer revelar os incontáveis mistérios da anima.

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