Muriel Spark e o mundo do cinema
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sábado, 21 de abril de 2001
Amir Labaki Agência Folha 
Há quase 40 anos, numa resenha de um livro da subestimada norte-americana Dawn Powel, Edmund Wilson, sempre ele, já saudava a então recém-descoberta Muriel Spark, sua colega nas páginas de The New Yorker.
Vinda da poesia, aquela escocesa que rodara o mundo até desembarcar nos escritórios de Willian Shawn começava a firmar seu nome com livros como o romance algo autobiográfico, The Prime of Miss Jean Brodie, levado às telas com Maggie Smith e rebatizado no Brasil como Primavera de uma Solteirona (1969).
Wilson compara Powel e Spark pelo encanto dos textos, mas poderia ter ido além. A leitora não encontra conforto ao se identificar com as heroínas de Miss Powel, escreve. As mulheres que aparecem em seus textos são provavelmente tão sórdidas e absurdas quanto os homens. Não existem cenas de amor que vão excitá-lo ou derretê-lo. Troque-se Miss Powel por Miss Spark e a análise nada perderia em precisão. A prova mais recente é Realidade e Sonhos, romance breve lançado por Spark em 1996 que está nas livrarias numa excelente tradução de Beth Vieira.
Elogios de John Updike, Gore Vidal e Paulo Francis reafirmam a fama de Spark como escritora de escritores. Compreende-se o aplauso de seus pares. É inevitável a inveja pela fluência do texto casada com uma profundidade de sentimentos. Spark escreve cinematograficamente, com cenas rápidas, cortes precisos e diálogos plenos de vitalidade.
Tratando-se, como em Realidade e Sonhos (Companhia das Letras, R$ 19,50), de um romance passado no universo do cinema, o paralelo fílmico parece fácil ou óbvio, mas não há melhor ou mais justo. Em 68, Spark já havia desenvolvido outro livro a partir de um personagem do mundo dos filmes, com a estrela em ascensão que perde o pé da realidade em A Imagem Pública.
Desta vez, o centro da trama é um alter ego mais próximo de Stark, Tom Richards, um bem-sucedido cineasta sexagenário. Quando o livro começa, Richards se encontra imobilizado num hospital, em lenta recuperação de uma queda de uma grua utilizada em sua nova produção, cujo título evolui de A Garota do Hambúrguer para Negócio Inacabado. A primeira metade da trama articula numa crise existencial vida (desacelerada) e obra (interrompida) do diretor.
Escapadelas consentidas, mais ou menos silenciosas, mantêm a estabilidade do casamento entre Richards e uma milionária, a bela e boa Claire. As emoções familiares são catalisadas sobretudo pelas duas filhas do cineasta, a encantadora Cora, de seu primeiro casamento, e a inquieta e desagradável Marigold, fruto da união com Claire. Spark narra a ciranda amorosa como num Feydeau para a frenética geração MTV.
Na segunda metade, a feia Marigold, malsucedida no amor e no trabalho, assume as rédeas da história ao desaparecer sem deixar traço. A ironia de Spark matiza o suspense, aproximando tudo de uma comédia de erros à moda O Terceiro Tiro (1956), de Hitchcock, para ficarmos em modelos cinematográficos
A grande arte de Muriel Spark é insuflar verdade numa trama assim breve e singela. Se o cinema é um sonho desperto, no livro a vida é um sonho inconsciente dele mesmo, protagonizado por todos e sonhado por um Deus perverso. Spark se esbalda e nos diverte, registrando aqui apenas mais uma de suas noites.


