Há quase 40 anos, numa resenha de um livro da subestimada norte-americana Dawn Powel, Edmund Wilson, sempre ele, já saudava a então recém-descoberta Muriel Spark, sua colega nas páginas de ‘‘The New Yorker’’.
Vinda da poesia, aquela escocesa que rodara o mundo até desembarcar nos escritórios de Willian Shawn começava a firmar seu nome com livros como o romance algo autobiográfico, ‘‘The Prime of Miss Jean Brodie’’, levado às telas com Maggie Smith e rebatizado no Brasil como ‘‘Primavera de uma Solteirona’’ (1969).
Wilson compara Powel e Spark pelo encanto dos textos, mas poderia ter ido além. ‘‘A leitora não encontra conforto ao se identificar com as heroínas de Miss Powel’’, escreve. ‘‘As mulheres que aparecem em seus textos são provavelmente tão sórdidas e absurdas quanto os homens. Não existem cenas de amor que vão excitá-lo ou derretê-lo.’’ Troque-se ‘‘Miss Powel’’ por ‘‘Miss Spark’’ e a análise nada perderia em precisão. A prova mais recente é ‘‘Realidade e Sonhos’’, romance breve lançado por Spark em 1996 que está nas livrarias numa excelente tradução de Beth Vieira.
Elogios de John Updike, Gore Vidal e Paulo Francis reafirmam a fama de Spark como escritora de escritores. Compreende-se o aplauso de seus pares. É inevitável a inveja pela fluência do texto casada com uma profundidade de sentimentos. Spark escreve cinematograficamente, com cenas rápidas, cortes precisos e diálogos plenos de vitalidade.
Tratando-se, como em ‘‘Realidade e Sonhos’’ (Companhia das Letras, R$ 19,50), de um romance passado no universo do cinema, o paralelo fílmico parece fácil ou óbvio, mas não há melhor ou mais justo. Em 68, Spark já havia desenvolvido outro livro a partir de um personagem do mundo dos filmes, com a estrela em ascensão que perde o pé da realidade em ‘‘A Imagem Pública’’.
Desta vez, o centro da trama é um alter ego mais próximo de Stark, Tom Richards, um bem-sucedido cineasta sexagenário. Quando o livro começa, Richards se encontra imobilizado num hospital, em lenta recuperação de uma queda de uma grua utilizada em sua nova produção, cujo título evolui de ‘‘A Garota do Hambúrguer’’ para ‘‘Negócio Inacabado’’. A primeira metade da trama articula numa crise existencial vida (desacelerada) e obra (interrompida) do diretor.
Escapadelas consentidas, mais ou menos silenciosas, mantêm a estabilidade do casamento entre Richards e uma milionária, a ‘‘bela e boa’’ Claire. As emoções familiares são catalisadas sobretudo pelas duas filhas do cineasta, a encantadora Cora, de seu primeiro casamento, e a inquieta e desagradável Marigold, fruto da união com Claire. Spark narra a ciranda amorosa como num Feydeau para a frenética geração MTV.
Na segunda metade, a ‘‘feia’’ Marigold, malsucedida no amor e no trabalho, assume as rédeas da história ao desaparecer sem deixar traço. A ironia de Spark matiza o suspense, aproximando tudo de uma comédia de erros à moda ‘‘O Terceiro Tiro’’ (1956), de Hitchcock, para ficarmos em modelos cinematográficos
A grande arte de Muriel Spark é insuflar verdade numa trama assim breve e singela. Se o cinema é um sonho desperto, no livro a vida é um sonho inconsciente dele mesmo, protagonizado por todos e sonhado por um Deus perverso. Spark se esbalda e nos diverte, registrando aqui apenas mais uma de suas noites.

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