Muralha de suor e sangue
Do túmulo dos Ming, o táxi me leva até a Grande Muralha, a reputada estação de Badaling, a 70 quilômetros de Pequim, onde desço para subir de teleférico (telecabine) até o ponto mais alto e voltar depois andando para o estacionamento.
Já da telecabine eu avisto a muralha. Como serpente na paisagem. Ainda que eu já soubesse o que ia ver, a emoção me toma. Também porque o guia diz que foi construída com terra e com os cadáveres dos que morreram na empreitada.
E, diante deste símbolo maior da nação chinesa, feito com o suor dos operários e dos prisioneiros políticos, é o poema de Pessoa que me ocorre: Ó mar salgado, quanto do teu sal são lágrimas de Portugal.
No alto, eu me detenho na paisagem semi-encoberta pela bruma e contemplo a serpente de pedra, que agora reflete a luz do sol. Impressiona pensar que ela vai da costa oriental até o deserto de Gobi, que a construção durou dois mil anos e não foi interrompida, apesar de nunca ter impedido as incursões dos nômades.
Esta muralha que não serviu à sua finalidade é a evidência de que o poder não pode prescindir do símbolo e de que a China se estruturou continuamente em torno do poder. Desde Qin Shihuangdi o primeiro imperador (aquele, do Exército de terracota) até hoje. (B.M./AE)





