Ela já foi capa da Folha2, foi matéria na revista Marie Claire, reportagem a seu respeito foi exibida em TV e, por duas vezes, foi publicada na revista de arte e cultura Medusa (edição nº 1 e nº 10, de onde alguns trechos deste texto foram extraídos) por conta de suas roupas e performances nada convencionais que realiza em Bela Vista do Paraíso, no Norte do Paraná. Desde 1986 vai regularmente ao estúdio do fotógrafo da cidade, Antonio Marcos Bejora e documenta seu trabalho, configurando assim, sua expressão artística.
Para ela, no entanto, não faz a mínima diferença se o seu trabalho é ou não é arte. Jarda, como é conhecida na cidade, vive de fato sua incorporação, seus personagens, criando uma poética pessoal para o seu mundo rodeado de dores e sofrimentos – ela é a prova viva de que muito temos que lutar ainda pelo convívio tolerante e pela aceitação da diferença entre todos nós – que ela reconstrói em seus discursos e roupas que desfila pelas ruas da cidade. Tudo ali faz sentido: a saia de penas e a bandeira de pano de prato com estampa de galinha com pintinhos é para falar do galinheiro do avô, o carvão que carrega na mão é para jurar a primeira caneta com que se escreveu no mundo e assim por diante.
Um paralelo justo e necessário pode ser traçado comparando sua obra com a de Arthur Bispo do Rosário, um homem que ficou internado durante 50 anos na colônia Juliano Moreira no Rio de janeiro, inventando um mundo onde seu misticismo o levava a crer que sua obra era realizada para lhe servir para o encontro com Deus. Uma retrospectiva sua pode ser vista até setembro em São Paulo, na mostra do Redescobrimento, no Parque do Ibirapuera.
Mas Jardelina, que vive em constante estado de carnavalização, é uma espécie de Orlan, artista que faz operações plásticas que transforma seu corpo numa espécie de escultura, dentro de galerias de arte, ou mesmo um Damien Hirst, que expõe pedaços de animais fatiados dentro de vitrines, criando assim uma espécie de curiosidade mórbida em nós.
Em Jardelina, arte e vida são binômios inseparáveis e, neste sentido, podemos juntá-la ao grupo de artistas do qual fazem parte a japonesa Yayoi Kusama – que se interna em hospício desde os anos 70 e que teve recentemente uma retrospectiva de seus trabalhos na Inglaterra com enorme sucesso – ao alemão Joseph Beuys, cujos trabalhos sempre se referiam ao seu passado e que dizia que tudo é arte e a Louise Bourgeois, que cria sempre baseada em referências às relações com seus pais.
Pós-apocalíptica, essa louca nascida no Estado de Sergipe em 1930 e que veio para o Paraná por volta de 1960 com marido e filho para trabalhar na lavoura, que grita e xinga pelas ruas da pequena cidade, ocupa esse lugar da transformação e da incorporação que o chamado movimento pós-moderno busca conceituar.
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