Mundo simbólico de Raul Cruz
Paranaguá promove dias de teatro, artes plásticas e música para o curitibano Raul Cruz, que adorava a cidade
Raul Cruz: ‘‘Até dez anos a minha vida era em preto e branco, a minha memória me traz preto e branco. Quando fui para Paranaguá, deixei tudo para trás. Encontrei a luz e a liberdade. Aí tem cor na minha lembrança. Deixei tudo aquilo e comecei uma infância comum, deixei os mortos no casarão de Curitiba’’Zeca Corrêa Leite
O artista plástico e dramaturgo Raul Cruz, falecido em 1993, aos 26 anos de idade, nasceu e morreu em Curitiba. Mas o encanto que ele tinha por Paranaguá, fez com que se apresentasse por toda a vida como sendo autêntico parnanguara. O projeto ‘‘O Mundo Simbólico de Raul Cruz’’, que será inaugurado esta noite e prossegue até 10 de abril, em dois endereços culturais da cidade, é a resposta da comunidade para o artista.
‘‘Todos gostariam de homenagear Raul’’, comenta Mariza Bertoli, crítica de arte e organizadora do evento. Ela lembra que quando a Casa da Cultura estava sendo restaurada já havia a idéia de se abrir a casa com uma exposição de Cruz. O arquiteto responsável, Luiz Marcelo Bertoli de Mattos, sugeriu a mostra que acabou não acontecendo, mas o nome do artista batizou uma das salas da casa.
Promovido pela prefeitura do município, o evento ‘‘O Mundo Simbólico de Raul Cruz’’ reúne exposições, performance, lançamento de livro, vídeo, instalação, debates. Começa hoje, movimentando a Casa da Cultura e a Casa da Música Brasílio Itiberê, simultaneamente.
O público poderá apreciar as telas e gravuras do artista a partir das oito da noite, na Casa da Cultura. Em seguida haverá um momento teatral com a performance ‘‘Vultus Retro Fugit’’, dirigida por Beto Perna, com Nasly Lanar, Nelson Uberna, Emir Vargas, Sueli Costa, Edson Luiz Torrens e Aorélio Domingues. O texto leva as assinaturas de Raul Cruz e Renato Negrão.
Às 21 horas, na Casa da Música Brasílio Itiberê, inaugura-se a instalação ‘‘O Teatro de Raul Cruz’’, de autoria de Beto Perna e Renato Cruz. As atrizes Marly Gott e Letícia Guimarães farão uma cena (‘‘Dorzinha’’) da peça ‘‘A Outra’’, que o dramaturgo escreveu numa homenagem às artistas que não conseguiram o ambicionado Troféu Gralha Azul.
O tema teatro é completado com a exibição de vídeos das peças ‘‘Foz’’, ‘‘Grato Maria Bueno’’, ‘‘A Ponte’’, ‘‘A Outra’’ e ‘‘Cartas PiSrre RiviSre’’ (uma incursão à dança), além de uma exposição de fotos de Ivan Bueno, Silvio Auricchio e Julio Covello sobre a cena curitibana.
Sarau e cinemaDia 30 de março Mariza Bertoli lança ‘‘A Morte, a Esfinge a a Rosa na Arte de Raul Cruz’’, na Casa da Cultura. Logo depois, na Casa da Música, acontecerá um sarau em homenagem a Raul, com as participações de Adélia Barros e Aldir Kleinke (piano), Terezinha Hamud (acordeom), Ivone Marques e Luiz Marcelo (vocais).
Para o dia 1º de abril está agendada a exibição do filme ‘‘O Sétimo Selo’’, de Ingmar Bergmann, na Casa da Cultura; no dia 6, às 20 horas, ocorrerá uma mesa redonda sob o tema ‘‘A Arte de Raul Cruz’’, com Geraldo Leão, Denise Bandeira, Eliane Prolik e Rossana Guimarães. Na coordenação estarão Adalice Araújo e Mariza Bertoli.
Na manhã do dia 7, às 10 horas, Adalice Araújo encontra-se com artistas de Paranaguá e à noite no Vídeo Clube, o cartaz será o filme ‘‘Um Dia, um Gato’’. ‘‘O Teatro de Raul Cruz’’ é o tema da mesa redonda marcada para o dia 9, com as presenças de Beto Perna, Jaqueline Daher, Regina Vogue e Fátima Ortiz.
Luz e liberdadeRaul Cruz tomou a cidade de Paranaguá como sendo sua terra natal desde o momento em que a família mudou-se de Curitiba para lá. Os casarios, a proximidade do mar, a luz de um sol intenso: eram muitas as surpresas que ele jamais esqueceu. As cores de sua pintura foram descobertas ali. Ele diria mais tarde:
- Até dez anos a minha vida era em preto e branco, a minha memória me traz preto e branco. Quando fui para Paranaguá deixei tudo para trás. Encontrei a luz e a liberdade. Aí tem cor na minha lembrança. Deixei tudo aquilo e comecei uma infância comum, deixei os mortos no casarão de Curitiba.
Autor e diretor teatral, pintor, desenhista, gravador, cenógrafo, figurinista: o jovem artista foi múltiplo nos afazeres. Graduado pela Escola de Música e Belas Artes do Paraná, em 1980, esteve em dezenas de coletivas e individuais. Participou do Salão Paranaense, da Mostra de Desenho Brasileiro e Mostra de Gravura Cidade de Curitiba.
Junto de artistas como Rossana Guimarães, Geraldo Leão, Eliane Prolik, Mohammed (também falecido), formava o grupo de expoentes da geração de 80. O gosto pelo teatro fez com que escrevesse e dirigisse peças. ‘‘Caim’’, um de seus sucessos, lotou por várias semanas o Guairinha, na temporada de 1992; no 2º Festival de Teatro de Curitiba, em 1993, representou o Paraná com a encenação de ‘‘A Ponte’’.
AidsRaul Cruz morreu em consequência da Aids. Ele sabia ser portador do vírus HIV desde 1991, e nos dois anos que teve de vida, atuou ativamente nas artes. Não se deixou abater, e aceitou participar do vídeo ‘‘Raul Cruz, Pintor de Almas’’, roteirizado e dirigido por Berenice Mendes. ‘‘Dona de uma elevada espiritualidade, Raul Cruz se revela uma personalidade fascinante a ser desvendada’’, comentou a cineasta após concluir o trabalho.
Cruz e Renato Negrão escreveram sua história em ‘‘O Duplo’’, levado à cena em abril de 1994, lembrando um ano de falecimento do artista. A peça é uma narrativa de amor entre dois homens, interrompida pela morte de um deles, vitimado pela Aids.
O outro permanece vivo, mas também está infectado. Este chora a perda do companheiro; faz um alerta sobre a doença e pede que invistam-se em pesquisas e no humanismo. Que o respeito seja um elemento real e que haja futuro para todos.
O texto de ‘‘O Duplo’’ traz personagens e trechos de peças escritas por Raul Cruz para a Companhia das Indias de Teatro de Curitiba, que teve nele um de seus fundadores. Trazidos ao palco numa nova situação, esses personagens cumprem o destino de recontar uma história já vivida.
Quando Raul Cruz morreu, na noite de 26 de abril de 1993, uma segunda-feira, estava em cartaz no Guairinha a peça ‘‘A Outra’’. Como uma homenagem ao artista, no dia seguinte o espetáculo transcorreu normalmente. Cumpria-se a sina de que ‘‘o show não deve parar’’.
‘‘O Mundo Simbólico de Raul Cruz’’. Série de eventos em torno da arte e da memória do artista que morreu há seis anos. A partir de hoje (25 de fevereiro) a 10 de abril na Casa da Cultura e Casa da Música, de Paranaguá.

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