O Mundo Livre S/A, expoente do mangue beat, anda cheio de graça. Para badalar seu novo álbum, ‘‘Por Pouco’’ (Abril Music), inventou uma banda-dublê para substituí-la em fotos promocionais, clipes e até aparições na TV.
A tiração de onda é provocativa e visa a desancar o arsenal de marketing das gravadoras, que prioriza a imagem dos artistas em detrimento da música. No caso do grupo pernambucano, a gravadora deixou seus integrantes à vontade para escolher seus clones e à vontade também no estúdio em companhia do produtor Bid.
‘‘Por Pouco’’ foi mixado em Los Angeles por Mario Caldato Jr., figurinha sempre presente nos créditos dos discos dos Beastie Boys. É o quarto álbum da banda e o que mais traz versões de composições alheias. Além das inéditas inclui ‘‘Mexe Mexe’’ de Jorge Ben (Jor), ‘‘Garota de Ipanema’’ de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, ‘‘Minha Galera’’ de Manu Chao, ‘‘Treme-Treme (Shakin’ All Over)’’ de Johnny Kidd, ‘‘Lourinha Americana’’ de Mestre Laurentino e o medley ‘‘Melô das Musas’’ reunindo trechos de ‘‘Musa da Ilha Grande’’ e ‘‘Uma Mulher com W Maiúsculo’’, ambas do primeiro disco.
O CD traz algumas participações ilustres. Tom Zé, a quem o vocalista Fred Zero Quatro parece imitar em ‘‘Lourinha Americana’’, comparece deixando um recado na secretária eletrônica. A turma do mangue beat marca presença com Otto e integrantes da Nação Zumbi, Comadre Fulôzinha e Mestre Ambrósio. Bocato colabora com seu trombone emprestando vigor à seção de metais, realçada pela primeira vez nos arranjos do grupo.
As letras continuam politizadas. No funk ‘‘Batedores’’, talvez a grande faixa do disco, Fred Zero Quatro proclama que ‘‘nosso combustível é som /não aquele contaminado que as donas de casa disputam nas prateleiras de ofertas dos grandes magazines’’. A seguir, trechos da entrevista que Fred Zero Quatro, líder da banda, concedeu, por telefone, à Folha2.
O disco traz versões de músicas de Jorge Ben, Manu Chao, Tom Jobim e Vinícius de Moraes, além de um medley de duas músicas gravadas no primeiro trabalho de vocês. É o álbum do Mundo Livre S/A com menos composições próprias. Isso foi uma opção da banda ou uma imposição da gravadora?
Foi uma opção coletiva do grupo junto com o pessoal da produção e da gravadora. A idéia era fazer um disco diferente dos anteriores colocando mais ‘‘lados A’’ do que ‘‘lados B’’, já que sempre fomos pautados por uma trajetória underground, sem compromisso em atingir demanda disso ou daquilo. Mas reconheço que havia idéias soltas, sem amarração, em alguns trabalhos. Os recursos disponíveis pela gravadora ajudaram a reforçar a linguagem da banda.
As batidas e os efeitos eletrônicos também estão menos presentes neste disco do que em álbuns anteriores
O Mundo Livre S/A não se prende a nenhuma cartilha. A eletrônica se insinou em nosso primeiro disco, em faixas como ‘Sob o Calçamento’ e ‘Samba Esquema Noise’. Já o segundo álbum era mais cru apresentando um retrato preto-e-branco da banda ao vivo. O terceiro foi feito na transição do selo Excelente para a gravadora Abril Music e em clima de jam session com a colaboração de quatro produtores (Edu K, Bid, Carlos Eduardo Miranda e Apollo 9). O novo disco é um novo momento, voltado mais para a harmonia e no qual pudemos aproveitar a estrutura da gravadora para colocar arranjos de metal com participação de músicos de peso como o Bocato. O legal é que a seção de metais, que remete às tradições da MPB, traz uma formação inusual com dois trombones e dois saxofones. Assim, as composições ficaram mais rústicas e vigorosas aproximando-se da música cubana. Por tudo isso, não havia motivo para continuar com as experimentações eletrônicas, que já fiz quando estava em gravadoras menores.
Por que vocês decidiram colocar uma banda-clone nas fotos do encarte e em todo o material de divugação do disco?
A idéia é se livrar de pagações de mico como fazer poses para fotos ou aparecer na TV fazendo play-back. Isso tudo vai ficar por conta da banda fictícia, que é formada por gente de teatro. Já nos shows, é a banda original que sobe no palco. A provocação é, na verdade, uma saia-justa com a indústria, que procura valorizar a imagem em detrimento da música. Mesmo assim, conseguimos convencer o departamento de marketing da Abril a comprar nossa idéia.
Por que você decidiu subir sua voz colocando-a à frente dos instrumentos?
O Mário Caldato Jr., que mixou o disco em Los Angeles, convenceu a banda para essa opção. É que, de repente, parecia cool ter a voz enterrada, escondida, quando na verdade isso servia apenas para quem não tinha o que dizer. No caso do Mundo Livre S/A, o texto sempre foi uma das características marcantes da banda. Lamento que as letras tenham sido obscurecidas pelo instrumental nos discos anteriores, mesmo porque em toda a nossa fase underground não tínhamos a menor noção de produção. A gente vinha da periferia do Recife, num contexto dominado pelas tradições. Para gravar o primeiro disco, tivemos que emprestar instrumentos dos Titãs.
Na música ‘‘Lourinha Americana’’, vocês dizem :‘‘O muro de Berlim foi abaixo e o mundo inteiro festejou. Agora, por que será que todo mundo fica indiferente a esse vergonhoso muro americano?’’. Vocês não se sentem solitários no mundo pop fazendo letras politizadas num meio que exalta a futilidade?
Acho que de uns tempos para cá começaram a aparecer sinais de combate à hegemonia ideológica do pensamento único, que parte da economia e se reflete na política e na cultura. Na música, por exemplo, predomina a lógica da cópia em detrimento da diversidade num país de tantos ritmos. Mas de uns três anos para cá, o globaritarismo deixou de ser consensual. Cada vez mais se vêem protestos atacando a apologia do mercado. A revista Showbizz do mês passado fala de bandas como O Rappa, Asian Dub Foundation e Rage Against the Machine que questionam a ordem. O Mundo Livre sempre teve essa postura conceitual entre seus princípios.
Como anda o movimento mangue beat? Você tem acompanhado a cena em Pernambuco?
Neste disco, convidamos o pessoal da Nação Zumbi, do Comadre Fulôzinha e do Mestre Ambrósio para participar de uma faixa como uma forma de reforçar a idéia da utopia da diversidade que deu origem aos nossos manifestos. Recife continua sendo um pólo efervescente realizando muito mais festivais do que dez anos atrás, quando só havia o Abril Pro Rock. O que ainda não mudou é o fato das rádios boicotarem as músicas dos artistas locais, preferindo tocar o que toca no eixo Rio-SP.
Você declarou numa revista que o mangue beat surgiu para se contrapor a Caetano, Gilberto Gil, Alceu Valença...
Quando eu questino esse setor da MPB, não faço julgamento da obra. Cada um tem sua importância. O que questiono é dizer que o mangue beat é herdeiro da Tropicália, o que para mim é o mesmo que dizer que o punk descende do hippie. É claro que nada surge do nada, tudo tem uma linhagem histórica. Mas dizer que um vem diretamente do outro...
Desde a estréia em disco, você fala com respeito do Jorge Benjor. Neste novo trabalho, vocês gravaram a música ‘‘Mexe Mexe’’. Ele é seu grande mestre?
O Mundo Livre S/A não renega essa influência. Desde o primeiro disco dele, o ‘Mais que Nada’, ele trazia um toque inovador no violão. O Jorge flertou com a Bossa Nova e depois com a Jovem Guarda, mas sempre transcendeu esses gêneros. Eu comecei a tocar violão depois de ouvir seu álbum ‘Tábua de Esmeraldas’’.

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