MUNDO JOVEM Um sonho de liberdade
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 07 de abril de 2009
Rodrigo Juste Duarte<br> Equipe da Folha 
O dia-a-dia dos adolescentes paranaenses que cumprem medidas socioeducativas em regime fechado ganhou um teor cultural intenso desde o começo do ano. Em 18 Centros de Socioeducação do Paraná (Censes) começaram a ser realizadas várias oficinas por meio do Projeto CulturAÇÃO, da Secretaria do Estado da Criança e Juventude e da Secretaria de Estado da Cultura.
Teatro, Dança, Capoeira, Artes Circenses e Música são algumas das atividades. Uma das mais populares é a oficina de hip-hop, que aborda os quatro elementos dessa cultura (rap, break, DJ e grafite), relatando suas origens e gerando reflexão através da música. Segundo Franja (foram adotados apelidos para não identificar os entrevistados), 17 anos, a oficina esclareceu muitos pontos. ''Antes da aula, eu tinha uma ideia errada de hip-hop, que para mim era droga e 'vida lôca'. Mas aqui eu aprendi que não era nada disso. Hip-hop é vida.''
Há um ano e um mês cumprindo medidas no Cense de Fazenda Rio Grande, Franja também achava que era difícil dançar break. ''Eu via os piás dançando e pensava que nunca ia conseguir fazer igual, que era difícil. Mas é só uma questão de treino. Treinou, pegou, tá dançando.''
Considerado o caçula do Cense, Anjinho, 17 anos, está há menos de um mês na unidade. Na oficina de hip-hop teve oportunidade de voltar a dançar break. ''Aqui dentro estou pegando os passos de novo, depois de um tempo parado.'' Além da dança, canta rap freestyle (estilo feito na hora, com improvisação).
Incentivado pela oportunidade, Anjinho pretende retomar uma vontade antiga. ''Um sonho que eu sempre tive, mas a droga não deixou, é de ter um grupo de dança, de B Boys. Quem sabe até ter meu grupo eu não consiga um espaço para fazer música freestyle?'', reflete. ''Venho de uma das vilas mais violentas da cidade. Já me arrisquei muito. Quero mudar'', comenta.
Com as meninas também há preferência pelo hip-hop. No Cense feminino Joana Miguel Richa, Zamila, 17 anos (um ano e dois meses em regime fechado), até compôs um rap chamado ''Black Li'' em parceria com outras três colegas. Ela faz as oficinas de dança e teatro.
Segundo ela, as atividade culturais também ajudaram no convívio com as colegas e funcionários. ''Antes eu era muito rebelde. Agora sou de paz'', comenta Zamila, que há pouco conquistou um quarto da fase 2 (mais confortável, silencioso e com televisão) por bom comportamento.
Anja Dourada, 15 anos, concorda sobre a melhora nas relações dentro do Cense. ''Mudou muito. Antigamente eram só os grupinhos. Agora as meninas todas se falam'', relata. Ela gostou muito da oficina de teatro. Tanto que até pretende ensinar essa arte. ''Se a juíza permitir, quero dar aula de teatro para crianças de uma creche quando sair daqui.'' Mas a grande surpresa para ela foi aprender valsa na oficina de dança. ''Eu nunca tinha experimentado. Estou adorando. Meus amigos falavam que era coisa de velho, mas depois que eu fiz, vi que não é assim. É gostoso o jeito como se dança valsa'', comenta.
Há cinco meses na unidade, Lirica, 15 anos, diz que gosta muito de dança de rua, mas prefere as danças de salão por serem uma coisa nova para ela que adora aprender. No entanto, dançar break é uma paixão que pretende levar adiante. ''Eu quero ser dançarina de hip-hop quando eu sair daqui. Quero fazer apresentação, dar aula e conhecer mais a história do hip-hop.''
Me rotularam de bandida, mente criminosa
Diz que faço rap, então sou perigosa
Fui julgada pelos manos da sociedade
Tiraram a minha liberdade, me puseram
atrás das grades
Mas ainda vai servir, firme forte como sempre
Não quero me desanimar, mas também bater de frente
Black Li, liga aí. Essa vida é mesmo louca
Eu falo pra você, não vou calar a minha boca
Tem gente que duvida, faz desacreditar
É playboy no DVD porque agora é eu na fita
Se eu sou bandida, tô armada com meu microfone
Eu me apresento MC D... Prazer, esse é o meu nome
Eu sou mais uma que chegou e representa
Quando tá na pista pode ser que a chapa esquenta
(Trecho do rap Black Li, composto por quatro
garotas do Cense Joana Miguel Richa)


