MUNDO JOVEM Comédia de cara limpa
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terça-feira, 15 de abril de 2008
Rodrigo Juste Duarte<br> Equipe da Folha 
Consagrado há décadas nos Estados Unidos, o gênero humorístico stand-up comedy vem ganhando cada vez mais popularidade no Brasil. Também conhecido como humor de cara limpa, este formato traz o comediante livre de personagens, maquiagem, fantasias ou adereços. Sobre o palco, o artista se apresenta em pé (daí o nome 'stand-up') e conta apenas com um microfone e seu talento para fazer as pessoas rirem de situações observadas no cotidiano, longe da tradicional contação de anedotas e das imitações de celebridades.
Este estilo que revelou Eddie Murphy, Bob Hope, Woody Allen, Jim Carrey, entre outros comediantes notáveis, começou a ter representantes em todo o Brasil. Em Curitiba, o pioneiro é Diogo Portugal, que há cinco anos toca dois projetos bem-sucedidos no gênero: o evento Risorama, que reuniu mais de oito mil pessoas no último Festival de Curitiba, e o Cabaret no bar Era Só O Que Faltava, onde se apresenta toda terça-feira com convidados.
Neste espaço com data fixa, foram revelados outros artistas, das mais variadas idades. Um dos mais novos é Fábio Lins, 21 anos. ''Criei um personagem para me apresentar no Cabaret. Depois disso comecei a observar outros comediantes, me arrisquei e comecei a criar para stand-up'', revela o comediante, que hoje se apresenta toda segunda-feira no espetáculo Santa Comédia, no Restaurante Santa Marta, o único show dedicado exclusivamente à comédia stand-up do Sul do Brasil.
Fábio é o mais novo do grupo, que também conta com Léo Lins, Marco Zenni e Vitor Hugo. O fato de ser jovem pode parecer um obstáculo, mas ele já aprendeu a lidar com isso. ''Acontece muito de eu subir no palco e o pessoal pensar 'Opa, esse cara é muito novo pra estar no palco', e ficar meio estranho, e demorar pra conquistar a platéia'', revela.
Com 25 anos, Léo Lins (que apesar do sobrenome, não é parente de Fábio), está escrevendo para stand-up há seis anos, e se apresentando há três. ''Comecei na área artística fazendo mágica, mas sempre puxei para o lado do humor. O que me inspirou no stand-up foi a série Seinfield, que ajudou muito a divulgar este tipo de comédia no mundo todo'', comenta.
Desde então, foi procurar material de fora. ''Assisti muitos comediantes americanos, pois no começo não havia no Brasil. O Jô Soares e o Chico Anysio já fizeram stand-up, mas não era a exclusividade deles. O José Vasconcelos é considerado o precursor no país. Mas eu acho que a linguagem só chegou recentemente'', opina.
Os norte-americanos também foram a escola de Marco Zenni, 35 anos. ''Entre meus favoritos está Chris Rock, que tem um estilo mais solto, rápido e agressivo.'' Vindo do teatro de humor, Vitor Hugo, 36 anos, viu no stand-up uma forma mais sutil de fazer comédia. ''Eu sempre gostei de contar piada, mas vi que o formato tradicional estava caindo, então eu investi no stand-up.''
Além das apresentações semanais em Curitiba, todos fazem seus shows em outras cidades, especialmente no Rio de Janeiro e São Paulo. ''O meio ainda é pequeno. Nós temos, chutando o pau da barraca, uns trinta comediantes de stand-up no Brasil, e todos se conhecem. Temos um bom intercâmbio'', revela Marco Zenni.
Para Léo Lins, o sucesso do gênero é motivado pela novidade. ''O stand-up, segundo a Judy Carter, é a forma mais condensada de humor que existe. Possibilita coisas que não era possível antes, como piadas específicas sobre videogames e casamentos'', acredita.
Marco Zenni é mais analítico, e associa o fenômeno a uma coincidência de fatores. ''Temos uma boa safra de novos humoristas, mais jovens. É um humor mais inteligente, com texto único. Trouxe o público para o teatro. A mídia apadrinhou o formato e há a facilidade de conhecer stand-up através do youtube'', relata.
Até a MTV, sempre de olho no segmento jovem, lançou um novo nome: Marcelo Adnet, que a emissora está anunciando como um artista de stand-up comedy, mas a classe discorda. ''Com o sucesso, tem muita gente puxando o termo para si. O Marcelo Adnet faz muita improvisação, enquanto no stand-up tudo é estudado, pesquisado. O Adnet é um ótimo ator e um grande humorista, mas não é de stand-up comedy'', alerta Marco Zenni.
Para quem quiser se dedicar a esta arte, os comediantes são categóricos: é preciso assistir às apresentações, tanto ao vivo, quanto pelo site Youtube. ''Depois tente escrever suas próprias piadas e converse com os comediantes que se apresentam nos bares para fazer um Open Mic (microfone aberto). Nós damos esta chance para quem está começando'', recomenda Léo Lins.
Como leitura, há o livro ''Stand-Up Comedy'', de Judy Carter. Vitor Hugo lembra que a observação também é uma tarefa importantíssima. ''O cara que quer fazer stand-up tem que ser um exímio observador do ser humano. O principal material para o texto são as situações do seu dia-a-dia. A vida da gente é uma coisa engraçada mesmo.''


