MUNDO JOVEM + Na trilha do rock rural
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 20 de maio de 2008
Claudio Yuge<br> Equipe da Folha 
Quem disse que bota e chapéu, identificação com as raízes caipiras e regionalistas, fazem parte apenas do pessoal que gosta de música sertaneja? A mistura da simplicidade do campo, do interior, vem aparecendo cada vez com mais frequência na safra do rock nacional, seja como influência de grupos baseados no folk ou no country, ou mesmo incorporados ao rock, que chega até mesmo a ganhar um subgênero, o ''rock rural''.
''O rock é rural por causa do sítio, de reunir os amigos ao lado da natureza. O som cita também o que já foi feito por Sá e Guarabira, Oswaldo Montenegro ou folk do Bob Dylan'', explica o fotógrafo, publicitário e promoter Jefferson de Schuhli, 46 anos, que organizou recentemente em Curitiba a primeira edição do Rock Rural, prestigiado por aproximadamente 500 pessoas. O evento reuniu em um sítio em Campo Magro, a 14 quilômetros do centro da capital paranaense, as bandas Hillbilly Rawhide, Crazy Mary & The Old Johns, 4 Ohms, Rota 66 e o músico Ivo Rodrigues do grupo Blindagem.
A iniciativa de buscar através do rock a identificação sonora mais próxima do homem do campo - seja por meio da estética ou temática - não é novidade. ''É a busca pelas raízes. Os anos 50 e 70 são um recorte histórico de tudo que foi criado de bom na música até hoje. Nos Estados Unidos vivia-se a depressão, o movimento beat e hippie, a revolução de Maio de 68. Existia um sentimento de antimoda, de dizer 'não vou pegar uma metralhadora, vou tocar guitarra'. Atualmente, tirando as exceções, as músicas são descartáveis; em seis meses as bandas deixam de existir'', afirma Jefferson.
''Acho que o lance do rock rural vem desde Woodstock, em 69, de festivais como o de Monterey (Monterey International Pop, de 1967). Foram feitos no campo, em uma época em que o pessoal curtia muito rock em todo o mundo'', destaca o músico Ivo Rodrigues, da banda Blindagem, que desde o final dos anos 70 vem também colocando em evidência referências à ''musica caipira'' em suas composições. ''O próprio Blindagem tem músicas sobre ecologia e a natureza. O rock rural é um lance bonito, para tirar a moçada das casas noturnas cheias de fumaça'', complementa.
O filho de Jefferson, o estudante Jeremias de Schuli, de 20 anos, atribui esse crescente interesse no ''rock rural'' também à falta de volume e regularidade nos trabalhos das bandas mais novas do mainstream. ''Hoje a música é comercial. O que me chamou mais a atenção para o rock é o conteúdo'', comenta.
Depois do sucesso da primeira edição, Jefferson agora sonha mais alto: pretende fazer o 2º Rock Rural no dia 12 de julho, um dia antes do Dia Mundial do Rock, e reunir gente como Sá e Guarabira, João Lopes e até mesmo Almir Sater. ''Desafio também o pessoal a fazer uma festa rock rural no mesmo dia em outras cidades'', convida o promoter.
Proliferação de bandas
O crescente interesse nos subgêneros derivados do folk e do country vem gerando um número cada vez maior de bandas interessadas em promover misturas com propostas semelhantes às do rock rural. Exemplo disso são as bem-sucedidas curitibanas Charme Chulo, com referências ao ''rock caipira'', e Bad Folks, influenciada por punk, country e folk. O estilo mais procurado pelos grupos é o bluegrass.
''Acho legal ter mais bandas, tem muita coisa, tem muito material para ser explorado. O que mais vejo hoje em dia é o pessoal buscar influência no folk irlandês. Mas também tem umas coisas loucas, como country metal e por aí vai'', opina o tatuador e músico Osmar Inácio Mostaço, integrante do Hillbilly Rawhide.
O Hillbilly, assim como a londrinense The Fabulous Bandits, busca a inspiração no bluegrass: subgênero da música country que permitiu aos imigrantes irlandeses e escoceses misturar sons da Grã-Bretanha com jazz e blues norte-americanos. Daí vem o estilo tocado por um bando de gente tatuada usando chapéus e botas, executando canções com banjo, gaita, violino, guitarra acústica, piano, baixo vertical, entre outros. Tudo com a ''pegada'' rock'n'roll.
''A música é muito sincera e é um tipo de música e letra que toca todo mundo'', destaca Osmar, que assim como os organizadores da festa, acredita que a simplicidade do rock rural facilita a identificação com diversas tribos e gente de qualquer idade. ''O clássico é eterno e a mistura com o regional ajuda o pessoal a ter uma identificação com a música'', reflete.
''A gente toca porque curte o estilo, se identifica com a música e mistura tudo que gosta. A simplicidade da música ajuda a juntar todo mundo, de todas as idades e de tudo quanto é tribo'', complementa o músico Mutant Cox, também do Hillbilly Rawhide.
Roqueiros, jipeiros, ''harleyros'' e amantes da música, que passaram pelo Rock Rural para comemorar o aniversário do Bar Farol, reduto de aventureiros em Curitiba, concordam que a proposta sonora une várias tribos. ''Ah, é bom sair um pouco da cidade. E, sendo música boa, fazer uma festa em um lugar como esse no sabadão é sempre bem-vindo'', diz o músico Rafael Paulo Probst, de 27 anos.
A professora Demaris Maiochi, 23 anos, também aprova o rock rural. ''Eu vim porque a música que toca é para todas as pessoas.''. E o organizador, Jefferson de Schuli, reforça. ''A coisa do rural serve para todo mundo, tanto para o cara que nasceu no sítio quanto para o cara da cidade. Festa em sítio é rock-and-roll!''


