Na semana passada, o jornalista Adherbal Fortes de Sá Júnior assumiu a cadeira número 30 da Academia Paranaense de Letras com um projeto no bolso. Ele quer que a academia inicie um projeto educacional para melhorar o nível da língua portuguesa nas escolas públicas de Ensino Médio. A idéia do jornalista trouxe à tona uma polêmica antiga: os jovens sabem ou não escrever? Eles têm ou não o hábito da leitura, fundamental para uma boa escrita?
''Eu gosto de português e me saio muito bem em redação. Gosto de escrever sobre vários assuntos, esportes, atualidades, conhecimentos gerais'', diz André Rosa, de 18 anos, apontado em um grupo de estudantes como a pessoa certa para responder à entrevista para esta matéria. André conta, ainda, que essa facilidade não é fruto do acaso. ''Meu avô e meu pai sempre me incentivaram a ler, e hoje leio frequentemente'', conta.
Ao seu lado, o amigo Bruno Ferreira, 17, que vai fazer vestibular de Engenharia de Produção, diz que vai bem em redação, mas confessa que quase não lê livros. ''Dentro do português gosto mais de gramática do que interpretação. Mas eu escrevo bem, tenho bons argumentos'', diz ele que lê apenas jornais e revistas. ''Leio poucos livros'', completa.
Para a professora Rossana Finau, do curso de Letras da Pontifícia Universidade Católica (PUC), a leitura é importante para agregar conhecimentos. ''A leitura auxilia as pessoas a ter o que dizer. Se leio é óbvio que é mais fácil escrever sobre diversos assuntos'', avalia ela, que também faz correção das redações nos vestibulares da PUC.
De acordo com Rossana, é justamente a falta de conteúdo o maior problema detectado nas redações. ''Falta de conteúdo é falta de literatura. Às vezes parece que estamos lendo sempre o mesmo texto, porque as fontes são as mesmas'', afirma, ressaltando que o jovem em geral restringe sua leitura àquilo que é obrigatório. Com isso, ele lê apenas o livro didático da escola, poucas coisas na internet - que é usada para conversas entre eles, e pouco para leitura-, um pouco de revista e jornal. Alguns cursos pré-vestibulares, diz, compactuam com essa preguiça mental, ao dar a seus alunos resumos ou mesmo fazer teatros sobre os livros indicados pelos vestibulares.
O professor de português Wellington Wella, que dá aulas em um curso pré-vestibular, acredita que a falta de hábito de leitura do jovem é um reflexo do que ocorre à sua volta. ''O Brasil não tem histórico de ser um país de letras. As elites no mundo em geral são mais intelectualizadas do que a daqui. No município de Buenos Aires (Argentina) existem mais livrarias do que em todo o Brasil. Aqui em geral a elite é iletrada. Faz questão de ter a última geração em tecnologia, mas não compra livros'', analisa.
O que assusta, segundo Yeso Ribeiro, que também é professor de português de curso pré-vestibular, é que essas pessoas têm acesso à cultura, mas não dispõem dela. ''A dificuldade de escrita vem da dificuldade de entender o mundo. Se a pessoa não está atenta ao que acontece em sua volta, se não lê, não conversa em casa, tudo isso vai desembocar em um texto complicado e prolixo'', completa.
Por isso, diz Wellington, os professores insistem junto aos alunos para que entendam, que ''o conhecimento do mundo não é um detalhe. Se ele não souber o que está acontecendo não vai conseguir interpretar uma charge'', diz.
Amanda Ximenes, 17, que vai prestar vestibular para Arquitetura, diz que escreve bem, mas não tem hábito de ler ''literatura''. ''A matéria que tenho mais facilidade é português, eu gosto de gramática e escrevo bem'', diz ela, que lê apenas revistas de atualidade e livros da moda, como Harry Potter.
Para Wellington e Ribeiro, livros como Harry Potter, Código da Vinci ou obras de Paulo Coelho, que tornaram-se verdadeiros fenômenos editoriais junto aos jovens, também são importantes e podem cumprir a função de conquistar leitores. ''Se em 10 leitores um chegar a ler um Machado de Assis, eles já cumpriram sua função'', diz Wellington.

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