MUNDO JOVEM - Traças TEENS em falta
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 26 de junho de 2007
André Amorim<br> Equipe da Folha 
O primeiro sebo de Curitiba surgiu em 1942. Na época, a energia nuclear era a novidade mais chocante da Segunda Guerra Mundial e seu proprietário, Cláudio da Luz Reis, aproveitou esse mote para batizar sua loja de Agência Atômica (certamente não imaginava o futuro trágico das cidades de Hiroshima e Nagazaki). O tempo passou, o estabelecimento mudou de nome, de endereço, e hoje é tocado pelos filhos do primeiro proprietário.
Hoje existem vários sebos na capital paranaense. Eles permitem adquirir livros por um preço bem inferior ao praticado pelas livrarias e encontrar títulos que já saíram dos catálogos das editoras. Essas características poderiam atrair um público que naturalmente tem pouco dinheiro sobrando e muita curiosidade: os adolescentes. No entanto, não é isso que acontece.
Os sebos de Curitiba não tem muitas traças jovens. Quem costuma consumir os livros usados são pessoas mais velhas. Os mais novos, dificilmente são vistos por entre as prateleiras empoeiradas. E quando dão o ar da graça, geralmente é para comprar discos de vinil, CD's ou histórias em quadrinhos.
Num universo repleto de novidades tecnológicas e com tantas formas de entretenimento, não admira que o público adolescente deixe de lado os livros para se entregar a outros passatempos como jogos eletrônicos, TV a cabo e a internet. Afinal, vivemos na era da síntese. A nova geração quer informação rápida, fácil de absorver e de reproduzir, para mais facilmente ainda ser esquecida. Neste cenário não existe tempo hábil para ler um livro.
Segundo Inajé Reis, gerente da Feira dos Livros Usados - antiga Agência Atômica - os jovens respondem por apenas 20% das vendas, incluindo aí gibis e CD's. ''Hoje em dia, o jovem tá mais preocupado em pegar resenha do que ler o livro inteiro'', diz. Para ele, é possível contar nos dedos aqueles que procuram livros pelo prazer da leitura, e não por alguma obrigação. ''Eles só vêm atrás de indicação da escola ou dos livros do vestibular'', observa.
Opinião semelhante têm o escritor paulista André Carneiro, 85 anos. Com obras traduzidas em mais de dez países e considerado um mestre do gênero da ficção científica, ele conta que recentemente ficou surpreso ao encontrar um menino de 11 anos lendo ''A Volta do Parafuso'', de Henry James. ''Fiquei empolgado, mas depois fiquei novamente decepcionado: tratava-se de um resumo da obra'', lamenta.
Ele avalia que o desinteresse dos jovens pela leitura é causado pela ''ignorância política brasileira'', que não conduz de forma satisfatória políticas que estimulem a leitura. ''Desde a escola até a universidade, o professor que ensina literatura não compra livros'', diz.
O cabeludo Lucas Lobo, de 19 anos, faz a defesa de sua geração. Para ele, a distância dos livros se deve às facilidades da internet. ''Quando quero saber de algum assunto vou no computador, é mais fácil e é gratuito'', justifica. Ele considera-se um ''rato de sebo'', mas seu alvo são os discos de vinil e os CD's. ''É raro eu ler um livro'', admite.
Assim como Lucas, Gislaine da Silva, 23, reconhece que lê menos do que deveria, mas diz que pretende mudar essa situação. Com um livro sobre bruxaria nas mãos ela afirma que de agora em diante passará a frequentar mais os sebos da cidade. Ela atribui o desinteresse de sua geração pela leitura à televisão e a internet. ''É muito cansativo ler'', afirma a moça, que já tentou, sem sucesso, terminar Dom Casmurro, de Machado de Assis e Iracema, de José de Alencar.
Dentre os livros mais consumidos pelos jovens, Inajé aponta como vencedor o bruxinho britânico Harry Potter, seguido pela triologia de O Senhor dos Anéis, de J.R.R Tolkien, e pelos romances policiais de Agatha Christie.
Os livros da conhecida coleção infanto-juvenil Vagalume, que embalou a imaginação de quem hoje está na faixa dos 30 anos, descansam esquecidos em uma prateleira do sebo. ''Só sai quando é indicado pelo colégio'', diz Inajé. Outros títulos que marcaram gerações, como ''O Sítio do Pica-Pau Amarelo'', de Monteiro Lobato, hoje são adquiridos apenas por leitores saudosistas, que desejam apresentar aos filhos e netos um pouco do prazer da leitura.


