MUNDO JOVEM - Sonho de viver da DANÇA
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terça-feira, 17 de julho de 2007
Maigue Gueths<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Camiseta folgada, moleton, calça larga, boné e tênis. No último final de semana, foi esse o figurino predominante, tanto na platéia como no palco, do Teatro Ópera de Arame, em Curitiba. Era o 6º Festival Internacional de Hip Hop de Curitiba, um evento que reuniu pelo menos 1.200 jovens dançarinos de Hip Hop vindos de várias cidades do País, todos com uma característica em comum: a paixão pela dança, em especial pelo jeito alegre, divertido e descontraído da dança de rua.
Durante três dias, os participantes se dividiram entre ensaios, na parte da manhã; cursos e workshops teóricos e práticos à tarde; e as competições de dança à noite. O investimento para realizar um festival de qualidade foi grande: R$ 140 mil. Para os workshops, foram convidadas personalidades internacionais do Hip Hop, como Don Campbell, Boogaloo Sam e Luam, os três dos Estados Unidos, e Yeya, vinda da Suécia.
O resultado foi mais um festival de grande procura. Os workshops contaram com 720 inscrições e 1.190 bailarinos, pertencentes a 70 grupos pré-selecionados, dividiram o palco da Ópera em três noites de competição.
''É uma oportunidade única'', dizia o dançarino e professor Flip Couto, da Companhia de Ciclos do Ritmo e do grupo Funk Fanáticos, de São Paulo, explicando que o interesse da platéia é mais do que justificado, uma vez que esta foi a primeira vez que o ''mito'' Don Campbell, criador de uma das técnicas de dança de hip hop, veio ao Brasil. No domingo à tarde, sentada no chão do ginásio de esportes do Colégio Santa Maria, a platéia, quieta, só queria absorver tudo o que o mito dizia.
Octávio Nassur, coreógrafo e professor da Hart Company e um dos organizadores do festival, explica que nos últimos anos a dança Hip Hop tem evoluído rapidamente no Brasil. Houve tempos em que os grupos de street dance (dança de rua) que quisessem participar de festivais tinham que se inscrever na modalidade jazz. ''Muita gente vincula o Hip Hop só como movimento social, mas hoje ele é também uma ferramenta de trabalho'', diz.
Nove em cada dez participantes do festival sonham com isso: viver da dança. ''É muito legal, porque durante o dia eu uso terninho, e de noite ponho uma calça larga e saio para dançar. As pessoas estranham, nem parece a mesma pessoa'', conta Amabily Stival, 23 anos, de Goiânia (GO), que trabalha como administradora de empresas, faz dança em academia e sempre que pode participa de cursos e festivais.
Mesma situação vive Marli Brito (Toco), 27 anos, de São José dos Campos (SP). Trabalhando com contabilidade, ela também se contenta em dançar apenas como diversão. ''Sábado e domingo, eu me divirto com o que gosto'', diz ela, que quase todo fim de semana viaja a São Paulo para participar de oficinas na área. ''Infelizmente, não tem um mercado de trabalho aberto'', lamenta, lembrando que, os únicos espaços são como professor ou dançando junto com algum artista. ''Mas esse lado a maioria não gosta, porque é muito ligado a marketing e o hip hop é mais aberto, divertido'', completa.
''Eu dou aulas de Hip Hop, vou a muitos festivais, competições. O sonho é participar de uma companhia, ir para fora, viver disso. Mas aqui no Brasil não dá para viver só da dança, a gente tem que trabalhar'', avalia Carini Pereira, 24 anos, de Canoas (RS), que é estudante de Educação Física, dá aulas de dança hip hop e é dançarina da companhia Art e Dança. Para bancar as participações em festivais, ela e os alunos têm que recorrer a algumas artimanhas, como fazer rifas, festas, cobrar pedágio, ou, ainda, ao ''paitrocínio'' e ''mãetrocínio''.
Já Márcio Alves da Silva, 21 anos, de Moji das Cruzes (SP), começa a realizar seu sonho. Dançarino do Chemical Funk, de São Paulo, ele trabalha dando aulas de dança hip hop em escolas para crianças, e esteve em Curitiba para dar aula em um dos workshops, como professor convidado do festival, selecionado entre 52 professores de todo país. ''Se não viesse como professor, não teria dinheiro para vir. Vida de dançarino no Brasil é lamentável'', diz.


