MUNDO JOVEM - Sempre alerta
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terça-feira, 13 de maio de 2008
Rodrigo Juste Duarte<br> Equipe da Folha 
No ano de seu centenário, o movimento escoteiro continua forte em todo o mundo, inclusive no Brasil. Idealizado pelo inglês Robert Baden-Powell em 1907, como um método de educação complementar, voluntário, apartidário e sem fins lucrativos, o escotismo tem como proposta desenvolver o caráter do jovem através de um sistema de valores. Para isso, dá ênfase, principalmente, ao trabalho em equipe e à vida ao ar livre, em contato com a natureza.
Foi esse um dos fatores que atraiu Felipe Gonçalves Di Nisio, 13 anos, integrante do Grupo Escoteiro São Luiz Gonzaga, em Curitiba. Entrou no grupo a convite de um colega de colégio. Começou em 2002 como lobinho (ramo que vai dos 7 aos 11 anos, cujo lema é ''melhor possível'') e hoje é escoteiro (que vai dos 11 aos 14, e carrega o famoso ''sempre alerta'').
''As atividades são legais, mostram como ter responsabilidade, exercitam a lógica. Tem exercícios físicos também'', comenta Felipe. Quando perguntado sobre as atividades preferidas, cita o rafting, os acampamentos (principalmente os mais numerosos) e atividades sociais para aumentar a união da tropa, como reunir um grupo para assistir filmes e comer pizza, fazer campeonato de truco, entre outras.
Para quem vê de fora, o grande lance do escotismo pode parecer apenas os acampamentos. No entanto, boa parte dos integrantes citam o companheirismo como fator mais gratificante. ''Praticamente todos aqui são muito amigos um do outro, e não apenas colegas ou conhecidos'', destaca Felipe. Seu chefe, Rafael Augusto Hackbart, 23 anos, compartilha da idéia. ''As amizades feitas aqui são diferentes. Você cria um vínculo mais forte com a pessoa com quem você vai acampar, passa a noite dividindo uma barraca'', relata.
Com 16 anos de atividades no grupo escoteiro, Rafael começou aos 7, também como lobinho, e chegou à chefia aos 21. Na metade deste caminho, começou a ouvir críticas de amigos de fora, comuns a quem pratica o escotismo. ''Quando se é menor, não tem tanta encheção de saco. O preconceito com escotismo acontece geralmente na adolescência, por causa do uniforme, as pessoas chamam de ridículo. Mas eu sempre achei massa, principalmente por causa dos acampamentos. Eu me defendia dizendo 'eu faço coisas que vocês não fazem. Enquanto vocês ficam em casa assistindo tevê, eu estou acampando num lugar bacana'. Quem não é escoteiro não vai ter essa oportunidade'', avisa.
O montanhismo é a atividade favorita do chefe. ''Tem aquilo de você se superar, conseguir algo que você achava que não conseguiria'', empolga-se. Seu ramo atual, de chefia, é mais tranquilo. A aventura maior ocorre na categoria de Sêniores e Guias (nome dado, respectivamente, para homens e mulheres, dos 14 aos 18 anos).
Entre os eventos relacionados ao escotismo, os mais importantes são os encontros conhecidos como Jamborees. O sênior Henrique Sanches Diogo, 16 anos, participou de um pan-americano na Argentina, em 2005, e no nacional, em Brasília, 2006, mas, de acordo com Henrique, nenhum se compara ao encontro mundial, comemorativo ao centenário do escotismo, realizado em agosto do ano passado na Inglaterra, berço do escotismo.
''Pra mim era normal ir a um Jamboree. Mas quando fui ao mundial, minha vida mudou. Comecei a pensar mais no escoteiro, conhecer as culturas de outros países'', afirma. Um dos pontos altos do evento foi a leitura de uma carta inédita que Baden-Powell deixou para seu neto. ''Só as pessoas do Jamboree puderam ouvir na íntegra, pois na Internet ela está resumida'', orgulha-se.
Depois de Sêniores e Guias, o ramo seguinte é o clã de pioneiros (dos 18 aos 21 anos), um preparatório para a chefia, que fica mais centrado em projetos, afinal nesta categoria o lema é ''servir''. Ana Cristina Veiga, 20 anos, cita como exemplo a reforma de uma escola carente em Cerro Azul, no Vale do Ribeira, em que os pioneiros arrecadaram 10 mil reais em doações para, em um fim de semana, deixá-la como nova.
''A criançada também ajudou e estava se divertindo muito com a reforma. Era uma coisa que a comunidade realmente precisava. Foi marcante ver que a gente podia fazer algo pelo futuro daquelas crianças'', aponta. ''A gente está aqui pra retribuir um pouco do que recebemos no aprendizado no grupo escoteiro. Não só retornar pra gente, mas pra sociedade também.''
Hoje Ana Cristina é bem empolgada com o escotismo, nas nem sempre foi assim. Quando começou como lobinha, aos 7 anos, não apreciava muito. ''Meus pais me obrigavam porque meu primo tinha sido escoteiro e gostou bastante. Daí eles compraram a idéia e me obrigaram a ir. Mas só quando eu passei de lobinha para escoteira eu comecei a gostar de verdade'', confessa. ''No fundo é muito legal como experiência de vida. Às vezes eu vou com minhas amigas pra alguma chácara e vejo o pessoal tão desajeitado com a natureza, até no jeito de pisar no chão, pois elas nunca tiveram experiências como as nossas'', completa.


