MUNDO JOVEM - Resistência de uma cultura subterrânea
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 01 de abril de 2008
Rodrigo Juste Duarte<br> Equipe da Folha 
Por anos a fio as publicações independentes conhecidas como fanzines foram as principais divulgadoras e incentivadoras das manifestações alternativas, sejam elas nas áreas da música, cinema, manifestações sócio-políticas, literatura, poesia, quadrinhos e outras artes gráficas.
Diagramados manualmente e impressos em xerox, estas revistas feitas por fãs (daí vem o nome, uma contração do termo em inglês ''fanatic magazine'') passaram a contar, em meados da década de 90, com a ajuda do computador como ferramenta para auxiliar nas diversas etapas de sua realização, mas sem perder seu espírito independente e contestador - desde que o dono do zine tomasse este cuidado e não fosse tentado pelos modelos profissionais que as máquinas propiciavam.
No entanto, a mesma tecnologia que no começo ajudou os fanzines, acabou por quase extingui-los. Com a popularização da internet, publicar um fanzine impresso tornava-se inviável. Quem mais iria gastar com xerox e despesas de correio se na internet era possível publicar de graça um 'e-zine' que poderia ser visto por qualquer pessoa no mundo?
Mas contrariando as expectativas, ainda nos dias de hoje há militantes desta forma de comunicação informal, especialmente na música punk/hardcore e nos quadrinhos e ilustrações. Neste último nicho, um dos representantes paranaenses é Rodrigo Mello Campos, de Cascavel, que colocou seu fanzine Sindromina à venda na loja de quadrinhos Itiban, em Curitiba.
Sindromina é um tipo clássico de fanzine, representante da 'mídia xerox'. Apesar dos quadrinhos necessitarem de um suporte impresso, poucos exemplares de quadrinhistas novos têm surgido. ''Sempre aparecem meninos com suas revistinhas xerocadas para colocar aqui, mas a maioria é de qualidade ruim, e estes eu não ponho à venda na loja'', queixa-se Mitie Utrabo, da Itiban. ''Tem gente que chega aqui com uma folha de sulfite xerocada com uns desenhos toscos e textos cheios de erros graves de português e ainda assim querem vendê-los a três reais. Aí não dá!'', exemplifica. ''Nosso espaço é aberto para fanzines e eu gosto de tê-los na loja, mas tem que ter o mínimo de bom senso'', alerta.
Entre os novos quadrinhistas que lançam suas publicações, a maioria não o está fazendo mais com impressão em fotocópias, mas sim em gráficas. No entanto, a atitude fanzinística continua, independente do método de impressão. Mário de Alencar, 29 anos, gosta da linguagem dos fanzines e está finalizando uma nova história em quadrinhos com colagens para uma publicação do Espírito Santo. ''Colaboro com fanzines desde 1997. Um dos trabalhos mais recentes é com a Revista Prego, de Vila Velha, que em breve lançará sua segunda edição'', comenta.
A mesma publicação conta com o trabalho de outro artista do Paraná: Chico Félix, 28 anos, um carioca radicado em Curitiba. ''Eu fazia gibi para a molecada do prédio em que eu morava, no Rio. Alguns amigos viravam personagens das histórias'', revela. Desde 2000 produz fanzines (editou o Desvio de Aluguel, entre 2004 e 2005), capas de discos e cartazes para shows. Este currículo lhe rendeu um convite para uma revista própria. ''No ano passado, um selo de São Paulo fez uma proposta de um zine de quadrinhos, e eu topei. Ele já está pronto, e vai se chamar Gente Feia na TV. Será impresso em gráfica, com capa colorida e miolo em preto e branco''.
As colaborações para outras publicações são constantes, e Félix geralmente atende aos pedidos. No ano passado colaborou com um fanzine de arte com estética punk chamado Em Crise, do Rio de Janeiro. Entre as capas de CDs que já desenhou, todas são de bandas do circuito hardcore, como No Violence, Infect, Jazzus e Chuck Norris. Mantém na internet o blog gentefeianatv-gentefeianatv.blogspot.com, onde posta suas ilustrações, HQs e tirinhas.
A Gibiteca de Curitiba mantém o costume de editar fanzines ao final de seus cursos de Quadrinhos e de Mangá. ''Reunimos o material que os alunos produziram durante o curso e compilamos em uma publicação xerocada. Como os cursos são semestrais, saem duas edições por ano'', explica Fulvio Pacheco, professor dos dois cursos. ''A intenção não é de fazer uma grande tiragem para sair distribuindo, mas sim que eles tenham como mostrar as técnicas que aprenderam em aula. Mas quem quiser, também pode tirar mais cópias por conta própria para distribuição''.


