MUNDO JOVEM - Por um mundo menos motorizado
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 16 de setembro de 2008
Rodrigo Juste Duarte<br> Equipe da Folha 
Em uma manhã de sábado, mais de uma centena de jovens ciclistas sai em carreata pelas ruas de um grande centro urbano, dividindo espaço com automóveis. Não são ciclistas profissionais, com trajes apropriados à prática do esporte. Aqui quem pedala usa roupas do dia-a-dia e tem a bicicleta não apenas como um lazer, mas como principal meio de transporte. Muitas das ''magrelas'' trazem placas e adesivos com os dizeres ''um carro a menos'', revelando o caráter de protesto da pedalada.
Esta cena, que se repete em Curitiba no último sábado de cada mês, faz parte da Bicicletada, uma iniciativa que a cada edição reúne um número maior de participantes - a maioria adolescentes - e defende a inserção da bicicleta no espaço público. ''A bicicletada não é um passeio. É uma manifestação, onde você encontra pessoas preocupadas com a cidade. Ela não tem trajeto definido, líder ou chefe. É todo mundo responsável pela segurança de todo mundo'', explica Jorge Brant, 28 anos, integrante do coletivo Interlux, que trouxe a ação para a capital paranaense em novembro de 2005.
Trata-se de uma idéia global, que teve início em San Francisco, nos Estados Unidos, em 1992. Desde então, esta pedalada passou a ganhar o caráter de movimento popular descentralizado, chamando a atenção para o aumento do número de automóveis nos centros urbanos e a diminuição do espaço para os ciclistas. ''A gente sempre usou a bicicleta e sentimos a falta de uma estrutura que a comporte'', justifica Brant.
Apesar do caráter contestatório, Brant explica que não se trata de uma guerra entre carros e bicicletas. ''A guerra é entre a primazia de um modo de transporte sobre todos os demais. Tem que ter espaço para todos, seja para a bicicleta, para o automóvel ou para o pedestre.''
No Brasil, a idéia chegou há seis anos, em São Paulo, espalhando-se para diversas cidades. ''No mês passado houve a primeira bicicletada de Guarapuava. Neste mês vão rolar em Ponta Grossa e Maringá. A iniciativa está crescendo no Paraná'', orgulha-se Brant. ''Em Curitiba, a primeira bicicletada começou com nove integrantes. Hoje temos uma média de 150 participantes.''
Entre os aderentes da iniciativa está Priscyla Alves Makiolke, 28 anos. ''Comecei a participar há dois anos. Desde então, venho em todas, faça chuva ou faça sol. Algumas foram cheias, mesmo debaixo de chuva'', lembra. ''Queremos provocar uma reflexão. Não é uma provocação no sentido ruim da palavra, até porque é um movimento pacífico, que mostra uma realidade e exige uma solução'', explica.
Incentivada pelo pai, Juliana Mathoso, 25 anos, está participando há um ano. Para ela, o transporte em duas rodas apresenta uma série de benefícios. ''A bicicleta traz tranquilidade, mesmo enfrentando o caos da hora do rush. A pessoa não se estressa tanto. É um transporte mais saudável, não só fisicamente, mas mentalmente e financeiramente'', defende.
Juliana lembra que na penúltima edição do evento em Curitiba, houve a participação de quarenta pessoas de São Paulo. ''Eles fretaram um ônibus, colocaram as bicicletas dentro e vieram pra cá se juntar a nós. Aquela foi a maior bicicletada da cidade'', relata. ''A rua parou naturalmente. Não houve nenhum atrito entre motoristas, ciclistas e pedestres. No dia seguinte, antes de voltar pra casa, os paulistanos desceram metade da Estrada da Graciosa de bike.''
A iniciativa está gerando frutos. Um deles é o evento ''Arte, bicicleta e mobilidade'', realizado neste mês, em sua segunda edição, com exposições artísticas, palestras, caminhadas, pedaladas, cursos e o ''Música Para Sair do Carro'', um happening com apresentações musicais, que ocorrem nas quintas-feiras de setembro, a partir das 18h, na travessa das ruas Augusto Stresser com Barão de Guaraúna, no Alto da Glória (a programação completa está no site www.artebicicletamobilidade.wordpress.com).


