MUNDO JOVEM - Oficina da criação
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 26 de fevereiro de 2008
Claudio Yuge<br> Equipe da Folha 
O Brasil conta com mais de cem anos de ficção científica (FC) própria, como bem ilustra o recém-lançado livro da Devir Livraria, ''Os Melhores Contos de Ficção Científica'', com trabalhos que vão de 1882 até hoje. O que pouca gente sabe é que nós temos e tivemos muitos autores dedicados a escrever sobre esse gênero. Em Curitiba mora um dos mais importantes nomes dessa vertente literária, que não só continua produzindo como também tem influenciado jovens autores.
A FC é muito famosa nos Estados Unidos e na Inglaterra, com autores da popularidade de Isaac Asimov, Philip Kindred Dick, H. G. Wells, Edgar Alan Poe e Julio Verne. No Brasil, temos elementos do gênero em obras de Machado de Assis, Monteiro Lobato, Érico Veríssimo, entre outros. Um dos grandes catalisadores para o crescimento desse segmento literário por aqui foi o editor baiano Gumercindo Rocha Dorea, que publicou obras de diversos escritores tupiniquins, da ''Geração GRD'', a exemplo de André Carneiro.
Carneiro nasceu em Atibaia, no interior paulista, e, aos 85 anos, atualmente mora em Curitiba, onde criou em seu próprio apartamento uma oficina literária para fomentar e descobrir, além de desenvolver, novos valores no gênero. O autor é auxiliado pelo professor de Química Mustafá Ali Kanso, 47 anos, na tarefa de reunir e incentivar jovens escritores.
''Eu era um oficinado e fui convidado pelo André (Carneiro) para ser secretário das oficinas. A gente procura interessados e reúne entre 15 e 20 pessoas um sábado por mês, para trocar impressões sobre os textos, as técnicas'', explica Mustafá.
Gabriel Wachowicz, de 12 anos, é o caçula do grupo que discute e troca textos na oficina literária. O ''menino prodígio'' já fala como escritor e negocia com editoras a publicação do seu primeiro livro, ''Mentes Homogêneas''. ''Antes não conhecia muito poesia, comecei a conhecer melhor pelo André, gostei pelo fato dele ser um bom escritor. Sempre fui fã de poesia, de Shakespeare'', diz o jovem poeta, que, diferente dos colegas da 7 série, adora literatura. ''Meus amigos preferem ficar jogando videogame ou vendo tevê, mexendo na Internet'', completa.
Para Nicole Navarret, de 19 anos, os encontros mensais servem para desenvolver o potencial e ajudam a ''descarregar'' no texto os problemas pessoais de uma forma positiva. ''Tenho pais escritores e cresci com isso ao meu redor. Escrevo porque acho as pessoas atualmente tão presas ao cotidiano que não percebem o que acontece ao redor. Para mim, as poesias são como um refúgio para falar sobre meus sentimentos sem ter que me expor muito'', reflete.
Já para Maristela Miliorini de Freitas, de 46 anos, e a filha Caroline de Freitas, de 17 anos, os encontros servem mais para que ambas tirem os ''caderninhos'' do fundo da gaveta. ''Eu tinha queimado tudo que escrevi quando me casei, por falta de confiança, e agora estou tentando refazer tudo. Você aprende muito dividindo a experiência'', destaca Maristela. ''Eu nunca tinha mostrado o que escrevo e agora consigo porque a visão crítica do pessoal me ajuda. Nessa idade, as pessoas não se interessam por literatura e tinha receio que as pessoas não entendessem'', complementa Caroline.
''Para o escritor, a arte de escrever é uma forma pacífica de revolucionar o mundo.'' A frase é de Rayane Fonseca, que, aos 21 anos, não se contenta apenas em escrever para si e os amigos. É preciso fazer a diferença. ''Se você escreve uma peça de teatro para 200 pessoas e a peça faz diferença na vida de pelo menos uma delas, então a missão foi cumprida'', afirma.
Ainda que a oficina faça sucesso entre esses jovens, o fundador, André Carneiro, pensa que a falta de incentivo do governo e a metodologia de introdução à literatura é insuficiente para uma geração dominada pelo consumismo e tecnologia dar mais valor aos livros. ''O leitor brasileiro pouco conhece sua própria literatura. O número de pessoas formadas leitora de livros é insignificante. Isso em parte é culpa do governo brasileiro, que não incentiva a leitura'', reclama.
Para Carneiro, o ideal seria que a linguagem contemporânea, mais próxima da modernidade dos jovens, fosse introduzida como ponte de acesso à literatura clássica. Afinal de contas, muito do cotidiano e até mesmo do linguajar desses livros mais antigos nada têm a ver com a realidade dos leitores mais novos, que então dão prioridade a outras mídias. ''Acho que a literatura deveria ter sido mostrada de frente para trás, do moderno ao clássico'', sugere.
Então, o ideal seria mesclar o clássico com uma linguagem moderna? Carneiro concorda, mas com uma ressalva. ''O ser humano vive se questionando e o papel da arte é descobrir quem somos nós. E para isso acontecer é preciso que a arte tenha qualidade.''


