MUNDO JOVEM - O teatro desconhecido
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terça-feira, 25 de março de 2008
Claudio Yuge<br> Equipe da Folha 
Aos poucos, o grupo chega no meio da praça, tira a maquiagem da sacola e vai saindo do anonimato para se tornar atração principal em local público. As roupas deles denunciam a distância de tempo espaço do ali e agora. E então os transeuntes aos poucos vão se tornando platéia e aquelas pessoas diferentes vão falando sobre poesia e reflexões, sobre a vida. A cena é comum no Festival de Curitiba, em que várias das companhias de atores que estão começando buscam proximidade com o público, com os colegas da classe cênica, com a experiência e a criatividade para em breve ter os nomes estampados em uma montagem maior, mais famosa, com ingressos esgotados.
O Festival de Curitiba tem nada menos do que 251 peças da às vezes até obscura Mostra Alternativa, o Fringe. Dessas montagens, 26 são gratuitas na rua, como a da Confraria dos Atores, que veio de Cuiabá (MT) para apresentar a montagem ''Outros Quintanas'', com texto baseado nas palavras do poeta e jornalista gaúcho Mário Quintana.
''A gente começou fazendo a peça em um lugar fechado, era uma coisa mais intimista. Mas com o tempo, passamos a ver muita peça na rua e percebemos que quando o espaço é fechado a peça fica mais limitada'', explica um pouco a montagem a atriz Karina Figueredo, de 20 anos.
Conquistar o transeunte, o espectador casual, aquela pessoa que não costuma ir ao teatro e de repente vê uma peça sendo executada em lugares comuns do dia-a-dia não é uma tarefa fácil, especialmente quando o grupo e a montagem são desconhecidos pela maioria. ''A juventude é mais fácil de atingir, acho que o pessoal tem cabeça mais aberta para aceitar'', afirma o ator Jan Moura, de 24 anos. ''As crianças são as que mais gostam, elas adoram'', complementa Karina.
''Tranquilidade é o que faz com que você consiga prestar atenção no público e chamar a atenção das pessoas'', comenta o ator Benone Lopes, 23 anos. ''Às vezes a coisa fica difícil, teve uma vez em que dois bêbados apareceram no meio da peça e ficavam conversando com a gente, ficavam gritando'', lembra.
Nesse caso, o pessoal precisa ter jogo de cintura e tentar envolver o ''problema'' na peça. ''E a gente também não pode mandar eles embora, afinal de contas eles também fazem parte da platéia, estão ali para ver a peça'', destaca Moura. E as peças na rua também contam com outras dificuldades repentinas. ''Acontece muita coisa de última hora, pode começar a chover também...'', acrescenta a atriz Talita Figueiredo, 23 anos.
Difícil mesmo é estar sempre nos festivais no início da carreira, quando falta grana pra tudo, principalmente para viajar e montar os espetáculos em outras cidades. ''A gente acaba se virando de qualquer jeito, onde dá pra ficar a gente fica. Dessa vez a gente recebeu uma ajuda de custo e alojamento e a passagem a gente conseguiu com um edital de incentivo à cultura. Viajamos 36 horas'', conta o ator Emanuel Vítor. O grupo de Cuiabá, por conta da peça gratuita na rua, está alojado no espaço cultural Casa de Artes Helena Kolody.
A Confraria dos Atores está junta há quatro anos e a média de experiência cênica do grupo é de oito anos. Nesse tempo os atores tentaram superar as dificuldades de aprender teatro em um local com pouca estrutura para quem pretende seguir essa carreira. ''O público daqui tem uma vivência maior com o teatro'', diz Benone. ''Em Cuiabá é um pouco mais difícil porque não temos opções de cursos superiores para artes cênicas'', reclama.
O intercâmbio de informações no festivais acaba sendo fundamental para o crescimento de companhias menores, de locais com pouca tradição para o teatro. ''É nos festivais que a gente tem contato com o público, com outras pessoas e companhias, que também acabam convidando a gente para fazer a montagem em outros lugares'', nota Talita.
E a experiência em festivais como o de Curitiba acaba sendo dividida com outros atores. ''A gente assiste uma palestra ou vê alguma coisa em outras cidades e acaba levando para lá'', frisa Emanuel Vitor, sobre o aprendizado de teatro em Cuiabá. ''O diploma faz uma diferença grande nas artes cênicas. Lá a gente acaba aprendendo na marra'', completa Karina. No final, o esforço acaba sendo recompensado, seja pela experiência ganha com a superação, pela sensação de ter feito um bom trabalho ou pela convivência e intercâmbio com outros atores desse ''teatro desconhecido''. Ou, especialmente, pelos aplausos e sorrisos de transeuntes, agora espectadores.
Para o grupo, nada melhor do que as próprias palavras de Quintana para resumir o trabalho e a satisfação de montar a peça por aqui. ''O leitor que mais admiro é aquele que não chegou até a presente linha. Neste momento já interrompeu a leitura e está continuando a viagem por conta própria.''


