De acordo com dicionários de língua portuguesa, pessoas superdotadas são aquelas que possuem ''inteligência invulgar'', ou seja, incomum. Especialistas afirmam que há cerca de 5% de superdotados entre os brasileiros. Segundo dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), o Brasil possui em seu sistema de ensino 2.553 alunos superdotados, 558 deles na região Sul. Mas onde estão e o que acontece com esses pequenos gênios quando crescem? A FOLHA visitou um projeto dedicado ao assunto na Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Paraná para fazer essa pergunta.
Bem, de acordo com a professora e psicóloga Elizabeth Carvalho da Veiga, coordenadora do Programa de Avaliação para Superdotados da PUC-PR, muitos não são identificados e os que são acabam não desenvolvendo suas capacidades excepcionais. ''São duas frentes que precisam ser trabalhadas para ajudar as crianças superdotadas: a família e a escola. Muitas famílias são contra a idéia da superdotação e elas decidem mais que a escola. E a maioria das escolas atualmente não está preparada para atender esses tipos de alunos'', explica.
O estudante Bruno Guillen, de 15 anos, é um desses garotos que se destacam dentro e fora da sala de aula. A identificação da ''vantagem intelectual'', no entanto, não foi clara no início. ''O Bruno foi inicialmente identificado como hiperativo porque ele tinha um déficit de atenção. Procuramos psicólogos e houve divergências nas análises. Ele aprendia fácil, só que não estudava mas via a aula'', diz o pai, o engenheiro Claudio Guillen, 47 anos.
São oito as inteligências comprovadas cientificamente no cérebro que fazem parte de expressões criativas, práticas ou analíticas do ser humano: a linguística, a lógica matemática, a corporal sinestésica, a espacial, a intrapessoal, a interpessoal e a naturalista. Os superdotados costumam ter vantagem em uma ou mais delas, mas não em todas. ''Eu me dou bem com química, biologia, matemática e física. Diferença com os outros alunos acho que não tem muito'', avalia Bruno. ''Vejo uma vez quando a professora diz e já entendi. Mas aí ela fica repetindo para explicar para os outros. Às vezes começo a fazer os exercícios antes'', complementa.
A repetição é, na maioria das vezes, o que acaba isolando os alunos superdotados, que precisam de orientação específica para acompanhar seu ritmo. ''Tenho mais facilidade em português e história. Às vezes sinto tédio, a aula fica repetitiva e começo a sentir sono'', diz a superdotada Alessandra Costa Goschi, estudante de 16 anos.
A falta de orientação voltada para esses alunos pode causar problemas de relacionamento ou mesmo cobrança social maior entre os colegas de classe, que sempre vão questionar a ausência de nota alta de um superdotado. ''Alguns superdotados têm estigma de superdotado e ficam isolados. Eles costumam ficar quietos e têm dificuldades no relacionamento interpessoal. Muitas vezes eles não mostram o potencial para não se destacarem demais, preferem se fazer de 'burro' para não chamarem a atenção, senão eles serão cobrados por isso'', coloca a psicóloga Marília Fructuoso Machado, 23 anos, integrante do projeto na PUC-PR.
Seria bobagem dizer que um superdotados será sempre o melhor da classe. ''Ele (Bruno) não é dos que tiram dez em tudo'', lembra Claudio Guillen. ''Minha letra é meu problema, uma vez a professora zerou a prova porque não conseguiu entender o que escrevi'', admite o filho, Bruno, que pretende fazer vestibular para Medicina e quer trabalhar com nanorobótica.
Já Alessandra sente dificuldades com matemática e física, assim como em se relacionar ou comunicar com os colegas. ''No colégio que estava antes, o pessoal queria ficar conversando e eu queria ficar lendo.''
É importante dedicar um programa de relacionamento e preparação dos jovens superdotados, pois atualmente alguns até mesmo acabam virando ''vilões'', tornam-se bandidos perigosos. ''Existem alguns bandidos superdotados e o maior exemplo é o Fernandinho Beira-Mar'', alerta a professora Elizabeth.
O bom desenvolvimento vai de encontro com a orientação adequada dada pela família e a escola, desde pequeno. ''Quando maior a base, mais estável será esse superdotado no futuro. É preciso estimular essa pessoa em todas as áreas. Algumas famílias tomam o superdotado como prêmio ou castigo. Antes de mais nada, são jovens.''

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