Você um dia já imaginou pessoas, situações e sensações somente a partir de uma simples foto? Já ''sentiu o cheiro'' do cigarro de um clube vagabundo abafado, digno de filmes noir, ou recriou mentalmente todo um cenário somente ao ouvir o refrão de uma canção? Essa é a proposta das fotonovelas do site www.crepusculo.com.br: usar uma mistura de design vintage com tecnologia e promover uma miniturnê entre linguagens - como quadrinhos, cinema, fotografia, música e teatro - para contar histórias atuais sobre gente como a gente e, porque não, para conquistar clientes.
''O site reflete um estilo de vida hipermoderna, um lugar onde tecnologia, nostalgia e paradigmas ''demodês'' dialogam e se confrontam.'' A autodefinição está no próprio endereço criado há dois anos pelo designer Fabiano Vianna, 32 anos, que, cansado de tentar desenhar sem sucesso seus roteiros, decidiu reunir um grupo de amigos para transformar suas histórias em fotonovelas.
''O começo foi bem coisa de amigo mesmo, a gente se reuniu para fazer algumas fotos e queria fazer em fotonovela para dar um realismo maior'', conta Fabiano, que chamou o amigo Bruno Zotto, 23 anos, baterista da banda curitibana Os Dissonantes, para iniciar o primeiro capítulo da fotonovela de estréia, batizada de ''O Último Cigarro''.
O universo rock'n'roll de Vianna e Zotto, diretor de fotografia, acabou se misturando às várias referências pop de ambos, como quadrinhos, literatura e cinema. ''O Último Cigarro'', por exemplo, narra a história de um escritor em crise que acaba encontrando uma linda garota em um ponto de ônibus. Ela pede para acender seu cigarro mas ele não tem isqueiro. No dia seguinte, o rapaz pede um charmoso Zippo emprestado do amigo Madureira para surpreender e impressionar, oferecendo fogo à beldade antes que a mesma suma para sempre.
As fotonovelas são feitas em flash com o uso de técnicas para ''envelhecer'' as imagens e contrapor o clima noir junto de design vintage com histórias passadas nos dias atuais. A trilha sonora é calcada no som sessentista, assim como o da banda Os Dissonantes. ''A banda casou porque as fotonovelas tinham muito essa coisa de músico. O conceito é de música sessentista mas sem ser militante, mais como referência mesmo. Por exemplo, gostamos de lambreta mas mais pelo design, pela forma. É como pegar essas referências e dar um ar novo'', explicam Vianna e Zotto.
''O Último Cigarro'' durou seis capítulos e o sucesso do folhetim eletrônico impulsionou novas produções, como ''Amigo Amante'', com participação de integrantes da banda gaúcha Bidê ou Balde, e ''A Infiel'', com o músico Wander Wildner. ''Continuamos buscando nossa linguagem, sempre obedecendo nossas preferências'', diz Vianna. ''Gostamos também de trabalhar com fotógrafos diferentes, que têm visões diferentes da história'', acrescenta Zotto. ''É como Sandman (série de quadrinhos da DC Comics, escrita por Neil Gaiman). A série sempre mudou de desenhistas mas manteve a mesma estética durante todos os números'', compara o designer.
Divulgadas pela web, as fotovelas foram muito bem recebidas em outros centros, especialmente em São Paulo e no Rio de Janeiro. ''Tinha lugar em que eu ia tocar com os Dissonantes e o pessoal olhava e me chamava de Madureira (personagem vivido na fotonovela ''O Último Cigarro'')'', lembra Zotto. ''Teve até uma vez que vi uns caras começarem a chamar o isqueiro de Madureira, por causa do mesmo tipo de isqueiro da fotonovela'', complementa.
Com o sucesso inesperado, o grupo começou a receber propostas de trabalho, principalmente do Rio de Janeiro, e precisou montar uma estrutura profissional para atender. ''O pessoal procura pelo diferencial da linguagem, pelas fotos feitas em filme, a direção de arte, a estética noir, a fotonovela'', comenta a produtora executiva do Crepúsculo, a publicitária Michele Bueno Franco, 24 anos.
Enquanto a próxima fotonovela não fica pronta, a equipe tem se dedicado aos trabalhos encomendados. O grupo realizou recentemente dois videoclipes, de Thais Gulin e Rodrigo Bittencourt, uma vinheta para o Canal Brasil e outro trabalho para a revista Capricho. ''A linguagem evoluiu bastante, antes era mais fotonovela, agora usamos outros recursos, como onomatopéias feitas em painéis e coisas do tipo, tentamos evitar o computador para o resultado não ficar tão artificial'', destaca Vianna.
O importante, de acordo com os produtores, é continuar promovendo um trabalho com mistura de linguagens e o charme da fotonovelas iniciais. ''Fazer no computador é tão fácil que para nós é mais legal ter as coisas que usamos para a foto no estúdio. Temos até feito trabalhos coloridos, mas sem perder a identidade. O importante é sair da coisa manjada de computador em 3D, o que dá mais autenticidade'', conclui o designer.

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