Quando a aula está chata, Rachel Naomi Iwanaga Narasaki, 16 anos, faz como muitos alunos entediados: começa a rabiscar e desenhar no caderno. A diferença é que o resultado são desenhos em estilo mangá (quadrinhos japoneses) ricos em detalhes e bastante elogiados pelos amigos. E ela nunca fez curso de mangá.
Da mesma forma, o fato de nunca ter frequentado uma aula de desenho não impediu Higor Nogueira, 21 anos, de desenvolver e aprimorar a própria técnica. ''Já nasci com o dom de desenhar'', afirma o estudante, que diz não ligar para eventuais críticas ao seu trabalho. ''Desenhar, para mim, é a arte de demonstrar o que eu sinto, e que não consigo expressar falando. Talvez por isso, para desenhar, eu sempre tenho que estar sentindo alguma coisa'', revela.
Para ele, todo mundo já nasce com um pouco de arte no sangue. ''Alguns têm o dom de se expressar por meio dela, acho que é o meu caso. Outros têm o dom de ver a arte. Em meus desenhos, quero que as pessoas usem a imaginação para entenderem o que quiserem. Na arte, não existe a compreensão certa ou errada'', define. Higor diz se inspirar em pessoas, em músicas e no mundo à sua volta para fazer suas criações. E, mais do que simplesmente uma forma de se expressar, ele pretende um dia transformar seu hobby em profissão.
Já Rachel não usa o desenho para expressar sentimentos. Para ela, que sempre gostou de desenhar e de ler muito mangá, esse hobby é apenas uma diversão. ''Eu desenho simplesmente porque gosto. É uma forma de me desligar do momento, do professor chato falando, e ir para um outro mundo. É gostoso, você fica satisfeito com o resultado e os outros também. Mas é só um hobby'', esclarece.
Sem levar muito a sério esses desenhos que fazia na sala de aula (''dificilmente desenho em casa'', admite), ela só substituiu as folhas do caderno por papel sulfite depois de muita insistência dos amigos. E valeu a pena. Um de seus primeiros desenhos em sulfite venceu um concurso da revistaria K2 Mangá, em Londrina.
O desenho também a ajudou a fazer amizades na escola - e os amigos a ajudaram a melhorar os desenhos. ''Meus colegas ficavam pedindo para eu fazer um desenho para eles. Não era grande coisa, mas eles elogiavam, mostravam para todo mundo. Aquilo foi me motivando, e os desenhos foram melhorando'', observa.
Mas, longe de trabalhar desenhando heroínas de mangá, a estudante prefere ela mesma salvar vidas. Rachel está estudando para o vestibular de Medicina, e sonha em ser voluntária em algum país africano. ''Mas acho que nunca vou parar de desenhar. É um vício'', comenta, admitindo porém que não tem vontade de fazer um curso para melhorar sua técnica. ''Acho que não ia gostar de ter um professor me dizendo se estou fazendo certo ou errado. O bom do desenho é que, dentro do papel, posso fazer o que eu quero.''

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