MUNDO JOVEM - Estética da provocação
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 10 de julho de 2007
André Amorim<br>Equipe da Folha 
A zeladora Consuelita andava pela rua Augusto Severo, próxima ao edifício onde trabalha, quando viu pintada em um tapume a mensagem: ''Apenas peixes mortos seguem a correnteza''. Mesmo sem ter estudado estética e qualquer outra disciplina artística ou filosófica, aquela frase provocou-a a pensar sobre algumas coisas, coisas que ela mesma tem dificuldade de explicar.
Quem caminha pelas ruas de Curitiba já deve ter se deparado com um cartaz impresso em uma folha sulfite com uma imagem de Jesus Cristo e a palavra ''açúcar''. Dessa vez a mensagem veiculada é mais complexa de ser digerida, mas impossível de ser ignorada. Mesmo sem conseguirmos organizar imediatamente um discurso sobre seu conteúdo simbólico, é quase certo que essa figura não passará incólume pelo nosso imaginário.
Mas qual a intenção disso? Quem está por trás dessas intervenções? O que querem dizer?
Há cerca de 5 anos, os espaços públicos da cidade vêm sendo usados para transmitir mensagens a pessoas que não estão diretamente relacionadas com a arte. Muros, tapumes, construções abandonadas, ruas, o suporte destas intervenções é o cenário urbano. Os autores destes trabalhos não assinam suas obras, mas são conhecidos através de um nome: Interlux Arte Livre, que, mais que um movimento, significa uma atitude.
A Interlux não tem razão social, endereço, site na internet (vai ter em breve) ou mesmo uma diretoria para nortear suas atitudes. Durante suas ações, ''o indivíduo é diluído e se torna Interlux'', explica Juan Parada, 27 anos, autor de algumas peças urbanas. Segundo ele, a intenção do movimento é sair dos espaços tradicionais onde as artes plásticas normalmente se manifestam e levar esses trabalhos a espaços ociosos da cidade, atingindo pessoas comuns com experiências estéticas, criativas e, principalmente, questionadoras.
Segundo Parada, essas ações podem ser coletivas e planejadas, com apresentações simultâneas de música e outras manifestações artísticas, ou então individuais e espontâneas.
A linguagem destas intervenções é tão variada quanto seus temas e participantes. Pode ser uma grafite, uma colagem (lambe-lambe), um estêncil, uma pintura, ou o que mandar a imaginação do autor. Uma das características deste trabalho é utilizar o suporte das obras - o espaço urbano - como parte do trabalho. Por exemplo: numa faixa de trânsito sob o asfalto, foi pintada a frase: ''Abaixo a cultura do automóvel''.
A inspiração para estas manifestações são as questões cotidianas, que podem variar dependendo do momento e da pessoa que se expressa. Os temas para as críticas de Juan já foram a política cultural da cidade, o consumismo exacerbado e o individualismo, hoje suas intervenções tratam da violência no trânsito. ''Criticamos alguns vícios da vida moderna'', diz Goura Nataraj, nome indiano que significa ''bailarino dourado'', autor da frase que impressionou a zeladora do início da matéria. Ele, Juan e o estudante de design Cláudio Celestino dividem o mesmo ateliê no Alto da Glória. Questionados sobre os resultados do trabalho que apresentam nas ruas de Curitiba eles são unâmimes ao afirmar que a idéia é provocar reação nos espectadores e que a prática é muito prazeirosa. ''É difícil diferenciar a diversão do trabalho'', conta Cláudio. ''Fazemos pelo simples prazer de expressar uma idéia e transformar o ambiente urbano em um espaço lúdico'', explica Juan.


